"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Brasília continua sendo uma festa...

Correndo o risco de levar um cassetete na cabeça ou uma bordunada na clavícula, sempre que há uma manifestação indígena aqui no Congresso Nacional, faço questão de estar presente. A ingenuidade evangélica dos indígenas e o fantasma da liberdade que ronda as troupes "indigenistas" é algo imperdível. Sem falar da polícia, de todos os naipes, que se infiltra por todos os lados como se estivesse atuando numa verdadeira guerra nas estrelas... Mas é tudo bobagem e ficção! Não acontece verdadeiramente nada! É só uma encenação dos dois lados e que dura apenas até ao meio dia e logo se dispersa, porque o estômago tremula e todo mundo precisa almoçar. 
Desta vez o grito de guerra dos manifestantes de várias etnias era: FORA CUNHA! Depois a velha reivindicação que todo mundo conhece de demarcação de terras e, claro, o sacro pedido de democracia. Curiosamente, depois dos sessenta, comecei a passar mal quando ouço alguém falar em democracia! Durante as duas ou três horas que passei por lá, correndo de um lado a outro e me deliciando com o aroma do cachimbo de alguns pseudo xamãs, ouvi três manifestações verbais interessantes: A primeira, de um velho índio gritando para a polícia legislativa: "Vocês pensam que estão lidando com quem? Vou queixar-me na ONU!". 
A segunda, de um índio, ainda bem jovem, com um imenso cocar de cordas que enquanto apontava sua borduna para o homem fardado que impedia sua passagem ia gritando-lhe: "Vocês ficam protegendo esses bandidos aí..! Mas esses bandidos terão filhos, também bandidos que roubarão e matarão vossas mulheres e filhos!".
Mais para o lado da abóboda da Câmara, uma velha índia que fumava um grosso cachimbo e que ao ouvir o coro de: FORA CUNHA cochichou-me: "o que é que essa pobre gente pode fazer contra um homem que tem milhares de euros na Suíça?". Ao invés de Suíça ela falou Suécia. 
O sol estava pior que o do Sahara. Os fotógrafos e as repórteres que não haviam usado protetor solar procuravam ficar à sombra das rampas. Já os índios, mesmo os mais contaminados pela malícia dos "brancos" postavam-se de cara para o sol como quem, numa espécie de mitraísmo selvagem, acreditava ser uma autêntica heresia e até uma ofensa a seus ancestrais a idéia de que esse astro sagrado pudesse vir a causar-lhes algum tipo de mal...




































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