"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 24 de outubro de 2015

A PÍLULA ROSA - Apesar do teatro e das bravatas contadas nos salões de beleza e nos ateliers de costura, segundo o mendigo K., as mulheres continuam achando o sexo chato & incômodo...







"La regardant dormir, il conjugua 
silencieusement le verbe faire l'amour, au passé, au présent et, hélas, au futur."
A. Cohen

Hoje encontrei o mendigo K. passeando pelo Parque Rodó, em Montevideo, quase junto ao meio-fio da Rambla República Argentina. Estava com meia garrafa de conhaque na mão esquerda e com a direita sobre os ombros da senhora mendiga, sóbria e elegante que o acompanhava. Sem querer saber o que eu fazia ali, naquela hora e naquele frio, foi logo retomando o mesmo assunto sobre o qual dissertou na última vez que nos vimos (mulheres):
Acompanhei pela TV o lançamento da pílula rosa lá nos EEUU - foi dizendo. Você sabe, a pílula rosa é como se fosse o viagra feminino, assim o chamam por aí. Não foi surpresa nenhuma para nós - dirige o olhar para sua companheira - ver 5 milhões de americanas confessarem que nunca sentiram desejo sexual. Aliás, é bom e importante lembrar que sobre sexo, as pesquisas são sempre falaciosas e falsificadas. Se por exemplo disseram 5 milhões, podes multiplicar esse número por dez sem medo de errar. 5X10 = a 50 milhões!
Parece uma heresia o que vou dizer-te, mas é a mais pura e a mais trágica verdade: o sexo, o ato em si, sempre foi tabu e sempre incomodou às mulheres... Sua companheira riu como se estivesse intimidada e ele continuou:
Tudo o que se disse até hoje sobre a desmedida sexualidade feminina, ou que as mulheres subiam pelas paredes de tesão e etc., foi sempre uma balela, uma lenda e uma farsa inventada por cafetões, donos de puteiros ou pelo mundo masculino alienado. Seguiu falando e contando nos dedos:
I.  Preste atenção: quando nos anos 60 se produziu a pílula anticonceptiva, as multinacionais, os donos de farmácias e as próprias feministas propalaram pelos "quatro cantos do mundo" que as mulheres estavam felizes porque agora poderiam fazer sexo a vontade sem terem que, necessariamente, preocupar-se com os riscos de engravidar... Mentira. Ficaram - em segredo, claro - profundamente angustiadas porque, a partir de então, com a pílula na cabeceira da cama não mais teriam a gravidez como desculpa e alibi para esquivar-se da "trepada";
II. A infestação do planeta pelos sex-shops trouxe outra ilusão aos pobres machos e outra angústia às pobres mulheres. Seria possível ser moderna, uma mulher do Terceiro Milênio sem fazer uso daqueles "brinquedos"? Mas o que fazer com aquelas peças macabras e onde enfiar aquelas porcarias e aquelas fantasias de borracha?
III. A recente proliferação de leis severas "contra o assédio sexual" também serviu como instrumento tanto para que elas se mantivessem longe e protegidas dos tarados de turno como para que ocultassem sua ausência de desejo...
IV. Quando recentemente as mesmas multinacionais lançaram no mercado a "pílula azul" (o tal viagra) começou-se a dizer que as mulheres passariam a ser bem mais felizes porque, finalmente, seus maridos "meia bombas", "broxas" ou simplesmente entediados  agora, com suas ereções de cavalos poderiam voltar novamente a satisfazê-las plenamente e sem grandes frustrações e esforços... Outra mentira. Ficaram, isto sim, bem apavoradas porque teriam que ir novamente para a cama e abrir novamente as pernas para seus velhos ou para outros brutamontes...
V. Com o desencadeamento e a quase generalização do lesbianismo tiveram novamente um forte álibi para fugir da sexualidade obsessiva dos "machos, mas continuaram, mesmo em suas relações "homoafetivas", carregadas de pudor e culpa, reduzindo toda a aventura sexual a umas lambidas aqui e a outras ali, a uma fricção aqui e a outra mais para baixo e etc., e sempre com o "desejo" e "aquelas partes" negadas e desativadas...
VI. E agora, com a tal pílula rosa, que logo estará a venda por aí, oficial e clandestinamente, ao contrário do que se especula, estão novamente assustadas e em pânico. Sabes com quê? Com o próprio corpo. Medo de terem que encarar o incômodo retorno do desejo... desejo que por inúmeras razões foi sabotado, pisoteado , reprimido e recusado durante séculos... 
Disse tudo isto num tom de sermão, quase como um pastor evangélico e quando, finalmente, colocou um ponto final em sua fala, tocou amorosamente o rosto de sua companheira que, para minha surpresa, olhou-me bem dentro dos olhos e enquanto levantava com sensualidade uma das alças de seus trapos assegurou-me: tudo o que ele disse é verdade! A mais pura e a mais triste das verdades! Apesar do teatro e das bravatas sexuais relatadas pelas mulheres nos salões de beleza, e nos ateliers de costura a verdade é que o gozo  feminino (o nosso gozo) esta contido apenas e basicamente na competição e na sedução. E não pense que este é um problema apenas das mulheres da pós-modernidade. Não! Nossas tataravós, bisavós, avós, mães e etc., também sofriam de picafobia e vieram pelos séculos a fora numa esfregação infanto-juvenil fazendo sexo mais por compaixão do que por tesão...

Um comentário:

  1. Bela aula essa do Mendigo K! Lendo Esther Vilar, Nessahan Alita e outros mais e observando a espécie em movimento não tem como não aprender!

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