"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 28 de março de 2015

"Ressuscitando" Campos de Carvalho...

Conforme vou avançando na obra de Campos de Carvalho mais aumenta a minha indignação com o silêncio e com a indiferença a que se condenou seus textos geniais. Numa nação minimamente séria, o Estado (com seus lacáios), as universidades (com seus pavões), a máfia editorial e a velharada da Academia de Letras seriam processados e condenados por tamanha cretinice. Inclusive os mineiros, que se consideram culturalmente a última maravilha do mundo, como é que foram deixar esse uberabense ser jogado na fossa do anonimato e do esquecimento? Tudo isso nos prova que a pior censura não é a dos crápulas fardados e nem da sempre asquerosa burocracia, mas sim a da turba cult e esclarecida.
E, por ai, nas nossas escolinhas de merda se continua falando demente e obsessivamente em Monteiro Lobato,  José de Alencar, de Lins do Rego, de Machado de Assis e de outros malandros cuja obra, ao lado da de Campos de Carvalho deixa até de ter existência.... Minha amiga, doutora e professora de letras me afirmou categoricamente que no país apenas sete ou oito gatos pingados sabem da existência desse escritor e que inclusive, quando morreu (10 de abril de 1998 em SP) os bostas da imprensa cult não deram mais do que duas palavras sobre o assunto. Quê porra de gente é essa?
Para conhecimento de quem não conhece, reproduzo abaixo alguns fragmentos de duas de suas obras:

1. "O que eles não compreendem é que uma coisa é o estômago e outra é a consciência, ou se tem ou não se tem, não se apaga uma alma como se apaga um fósforo ou mesmo um incêndio, cada um sabe o que lhe vai por dentro, o resto é demagogia..."

2. "Há toda uma tragédia rugindo por entre as nuvens e pedem que brinquemos de criança porque é o dia de Pentecostes...?"

3. "Essas crianças de hoje só pensam em fazer outras, de transviadas mesmo é que não têm nada, todos os caminhos levam a Roma e à fornicação, ou então me mostrem outro mapa..."

4."Tudo são buracos, dizia um velho professor de vernáculo, hoje num deles..."

5. "Meu habitat nada tem a ver com este universo em que respiro, seria o mesmo que confundir a luz e a sua lâmpada, o morto e o que foi e continua sendo a sua consciência: por trás destes óculos existem o troglodita e o seu tataraneto, e o tataraneto do seu tataraneto e ainda o meu bisneto e o seu bisneto, até o homem das cavernas do século XXX..."

6. "Por nossas veias corria o esperma em vez de sangue: ceifavam-se muito mais vidas sob nossos testículos do que nas fileiras inimigas...

7. A filha-noiva  da dona da pensão masturbava-se com todos os dedos, de dia tocava umas valsas dolentes no piano, uma tarde me ofereci para tocarmos a quatro mãos, molhei-me as calças: o noivo presente..."

8. "A hora melhor para vir ao jardim é qualquer hora - contanto que não se olhe para a flores. Não tenho afeição nenhuma às flores, parecem-me mesmo próprias mais para defuntos: trescalam em excesso e dão demais a idéia de nossa efemeridade..."

9. "Foi-se o tempo em que a inocência tinha um metro e pouco de altura, eu é que não vou nessa conversa: a filha do delegado tem pouco mais do que isso e eu que o diga! A inocência, minhas senhoras meus senhores, ou morre-se com ela ou então é que ela nunca existiu; isso de corrupção de menores é tão crime quanto a corrupção de maiores, e não se faz outra coisa desde que o mundo é mundo. Acredito mais na inocência de uma avó do que na de mil netos - só que a avó não me interessa..."

10. "Dize-me com quem andas ou te darei um tiro!"

11. "O tamanho de um homem é o do seu caixão (...)Aqui somos todos aspirantes a defunto...

12. "Às vezes copulava-se na própria terra, um buraco cavado com os dedos, o indicador ou o médio, os dois, conforme o diâmetro: o diabo era a sensação de incesto que não se podia evitar: a tal da mãe pátria..."

13. "Cada bala deveria trazer o nome de seu herói..."

14. "Subo-me aos ombros para atravessar essa vau de silêncio, já me aconteceu antes e não acordei depois, é uma espécie de levitação sem o corpo, estou mais alto do que o velho e a sua torre: desabarei sobre mim como um castelo de cinzas..."

15. "Onde fica o mictório nesta...: é sempre lá no fundo? Não mudam nunca, até parece que existe uma convenção a esse respeito, é sempre de costas para a rua, a gente tem que urinar para cima para não acabar urinando no bolso..."

16. "Na hora da morte é preciso que haja ao menos um espelho em frente, para que a gente não se sinta terrivelmente só..."

17. "Sinto asco das coisas mas ao mesmo tempo certa piedade, é como se tudo e eu fizemos parte de um só mundo, perdido e sem esperança, porém inocente, Isto não me impede de urinar sobre o que deva ser urinado, muito pelo contrário..."

18. "Hoje à noite venho urinar nesta porcaria, para ver se ao menos nasce uma flor..." 

19. "O dinheiro que você ganha aí no Brasil não dá nem para andar a pé aqui na Europa (aliás o que mais se vê aqui é turista com mochila às costas e cantil a tiracolo: devem ser milionários sul-americanos) e não adianta querer tirar fotografia com o museu do Louvre ou o Big Ben ao fundo se a barriga está roncando de vazia..." 
(Textos extraídos de Vaca de nariz sutil e Cartas de viagem)

5 comentários:

  1. E Gustavo Barroso, então. Condenado ao olvido por ser anti-mação.
    Leias o Protocolos, pra ver como tudo é um plano

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  2. Suas descobertas são boas, Ezio. Eu não conhecia esta criatura crítica e com títulos tão interessantes! Obrigada!

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  3. Puxa, sou mineiro (embora culturalmente um mero leitor) e só ouvi falar dele na sua postagem anterior. Está na lista para ler, obrigado por manter o blog !

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  4. MÔNICA PRADO TORRES30 de março de 2015 18:13

    Gostei. Ácidos como os seus textos, e os meus também... Valeu pela indicação!

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  5. Que beleza! Já ouvi falar dele, e realmente, as aulas de literatura e os livros didáticos fazem mal ao futuro leitor.

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