"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Em breve, nos semáforos e nos botecos de república III

..Ir para a esquerda ou para a direita é a mesma coisa. Seguir o fluxo ou ir na contramão, sem destino, é uma maravilha. Explorar as ruazinhas do velho Panier (ali onde ficava no passado a grande maioria dos bordéis da cidade) ou bater pernas pela região do Pharo (onde Napoleão fez morada por uns tempos), dá no mesmo. Todos os horrores do trabalho, da vizinhança e da família ficaram para trás....
Cada prédio, cada árvore, cada praça, cada rua, cada vulto, cada cachorro, cada trem que cruza em alta velocidade levitando por sobre trilhos de ferro espelhado, é um gozo, uma sensação quase infantil de descoberta e de curiosidade...

Os lixeiros recolhendo as merdas e os vômitos dos bêbados da noite e cada pessoa que vem em nossa direção, rápida ou devagar, quase nua ou cheia de capas, de chapéu ou com a careca refletindo os arranha-céus, é sempre alguém que nunca se viu antes e que provavelmente jamais se verá. Seja xenófobo, fascista, maçom ou filho de Maria, tanto faz. Eu a olho e sou olhado por ela. Às vezes é uma beldade, outras vezes uma monstruosidade! Dá no mesmo. Repito: nunca vi aquela pessoa antes e até aquele momento ela não sabia de minha existência.

Nos cruzamos na rue de Rome, direção obelisco. Sinto seu perfume, o cheiro dos ácaros em sua roupa ou seus maus odores. Lembro que esta cidade foi historicamente uma cidade de exílio. Primeiro os armênios e os gregos fugindo do holocausto turco; depois os italianos fugindo dos fascismo; os judeus, do nazismo; os espanhóis, de Franco, os magrebinos, da repressão em seus devidos países...

Não há solução: o homem é a serpente do homem!

Dobro a esquina em direção ignorada, ela some pela sinistra passagem de uma construção no meio do tiquetear das xícaras da cafeteria que ainda nem abriu as portas. E esta experiência se repete infinitamente entre mim e a escumalha, entre mim e o mundo, esse chafariz de descaramento. Fotografo uma janela onde uma trepadeira mediterrânea se infiltrou pelas fendas da persiana já destroçada pela brisa do mar. Faço o foco. Imagino que dali alguém pode ter assistido alguma escaramuça entre algum burgo e os loucos da Comuna... Penso em Rimbaud sendo carregado por trezentos quilômetros sob o sol do deserto da Abissínia com o câncer latejando em seu joelho... Cheiro de pão esquecido no forno! Aproximo ao máximo aquele retângulo que está sendo congelado no interior de minha máquina. Surpresa: através da lente percebo uma lagarta grudada a uma folha. Uma pequena lagarta, quase azul. Conheci uma mulher que tinha fobia a lagartas. Esqueço de clicar. Fico ali, imóvel, sentindo o cheiro do pão com a beiradas queimadas e acompanhando os movimentos daquele estranho ser que lembra um tanque de guerra com suas esquisitas patas. Quando volto à realidade, estou cercado por três ou quatro senhoras, cada uma mais antiga do que a outra com suas sacolas de verduras, peixes, flores, vinhos, com aquele misterioso ar de pré-demência e que também olham em direção à janela tentando adivinhar o que realmente registro. Vagabundo incurável, posso ficar ali com elas duas ou três horas, de mãos dadas e em silencio, simplesmente olhando para o nada.., ou então, só por cinismo, interpelando-as sobre o casamento de Protis e Gyptis ou sobre as fábricas de sabão e de azeite, tudo com a clássica simpatia histérica produzida em qualquer idioma. Sim, o idioma é o que menos importa. O que vale não é o verbo, mas a pantomima que o acompanha.

Elas me alertam que Marseille gosta de esconder o jogo e que não será em trinta dias que poderei adentrar em seus principais segredos. Uma delas, a com aspecto mais macbetiano, teve um filho que foi primeiro para o Nepal e em seguida para a Índia, um daqueles idiotas da utopia que pensou em reescrever os Vedas ou descobrir na heroína alguma razão especial para viver. Razão especial para viver!? Ficou por lá durante meses tanto nos albergues de Katmandu como nos de Délhi, nas comunidades de Poona e nas estrebarias improvisadas de Varanasi, dormindo com as vacas, amigo dos leprosos da beira do Ganges e fazendo poemas que até agora ninguém quis ler e nem publicar... Enquanto ela ia falando foram desfilando por minha memória a grande maioria dos sadhus de Varanasi, quase nus, o corpo lambuzado com uma farinha branca, com cobras enroladas ao pescoço e fumando hashish em seus improvisados cachimbos. Seu filho enlouqueceu. Não são poucos os ocidentais que enlouquecem por lá. O encontraram na praia de Arambol revirado e comido pelos cachorros no meio das areias e do barro. Naquele barro da Índia, um barro quase sempre mijado, cagado e onde tudo parece estar contaminado pelo bacilo de Koch...

Fui até lá para buscar o corpo de meu filho – me disse soluçando. Me ofereceram um punhado de pó. Voltei dilacerada! Odeio o pó! Odeio a Índia! Minha vingança será publicar seus poemas.., até já sei um deles de memória:

“Quando a ponta superior de um fio de cabelo é dividida em cem partes e novamente cada uma de tais partes é ainda uma vez dividida em cem partes, cada uma de tais partes é a medida da dimensão da alma espiritual...”

Mesmo percebendo que aquele texto não era obra de seu filho coisa nenhuma, mas sim um plágio do conhecido e milenar lero-lero do Bhagavad-Gita, recomendei-lhe que tivesse calma, que os editores são mestres em fazer promessas de belas edições, principalmente quando os textos são de bêbados ou de malucos bordelines que surtaram e que endoidaram pelos confins do Himalaia... Só que... não cumprem.., e quando cumprem.., não pagam ninguém... A mais velhinha delas, com a metade de um canino em ouro agarrou-me pelo cotovelo e cochichou-me: “você que anda pelo mundo meu filho, lembre-se sempre, que nenhum homem é um herói para o seu criado; não porque ele não é um herói, mas porque um criado é um criado”.

Nos dispersamos. Elas sobem pela rua Cours Belsunce, (praticamente pela calçada onde foi instalada a guilhotina em 1879, aquela que cortou umas 250 cabeças por aqui) enquanto tento localizar o ônibus que me levará até a Église Saint-Eusébie (Paroisse de Montredon). O sol ricocheteia lá nas muralhas do Forte de São Nicolau e em seguida mergulha nas ondas azuis do mar onde centenas de barcos, lanchas e veleiros balançam para lá e para cá sem pressa nenhuma em esquiar sobre os abismos... Uma pequena barcaça, tipo a clássica nave dos loucos, amarrada quase em frente ao recém construído l’ombriére não para de mover-se e ao atritar-se humildemente com o casco de um luxuoso veleiro, produz algo como o gemido de uma sereia, o choro de um sapo, o lamento de uma alma de outro mundo... Na direção de meus olhos, Mediterrâneo a dentro, está a pequena ilha onde foi construído o famoso Castelo de If, aquele onde Dumas "encarcerou" o Conde de Monte Cristo. Na página 542, 543 da obra em questão, quase chegando em Marselha, Dumas escreve: ..... (pp. 78 84)

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