"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vou-me embora pra Pasárgada... quem sabe, por lá, eu não venha a ser amante da neta do rei...




"... Ó forasteiro, quem quer que sejas, de onde quer que venhas, porque sei que virás, sou Ciro, que fundou o Império dos Persas, não tenhas rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo..."

Ao sair de casa hoje, 12 de fevereiro de 2014, meia hora antes das oito, deparei-me com um bilhete do mendigo K enfiado sob o tapete. Com uma letra impecável, no formato de manchete, dizia: Prenderam o pobre garoto que matou acidentalmente um cinegrafista! E continuava. Enquanto uma casta sem rosto se esbalda em luxos, poderes, cátedras, fornicações, massagens, mandatos, helicópteros, advogados de aluguel, carros blindados, bolsa de valores, canais de Tv, concessão de rádios e de jornais, confessores, guarda-costas, proteção judicial e policial e etc., a ralé média, a ralé remediada e a ralé-ralé se debate com o cotidiano, se enfrenta por migalhas, tenta sem sucesso dialogar com seus fantasmas, se desespera, se revolta, se assassina e acaba, como estava previsto até na Carta Magna, lotando as prisões, todas infernais e recheando as estatísticas, normalmente falsificadas, da loucura.

Preste atenção como esses países, essas repúblicas e essas sociedades chamadas "em desenvolvimento", com sua desordem nata, com suas taras seculares, com suas omissões e com suas mentiras institucionalizadas são fábricas e usinas de "transgressores", de "culpados", de "delinquentes", de "estelionatários", de "bandidos", de "loucos" e, por fim, de "assassinos". 

Primeiro, com o pretexto da sobrevivência e da competitividade, se induz a criança, o adolescente e o sujeito, a transgredir e a delinquir, e depois, quando sua transgressão vai além daquilo que a hipocrisia social pode camuflar e suportar, se faz um alarde cretino e espetacular para rotulá-lo, estigmatizá-lo, perseguí-lo, caçá-lo, prendê-lo e sutilmente eliminá-lo, sem dar importância alguma à impressionante similitude social, moral e até afetiva que sempre há entre o agressor e a vítima, entre os bandos e o sistema, entre a lei e os fora-da-lei, entre os pés rapados e os mandatários.
Ah, se pelo menos essas centenas de crimes diários fossem sintomas de uma luta social..! De uma guerra pelo conhecimento! De uma batalha pela soberania pessoal! Mas não são. 
Trata-se de uma pobre, mesquinha, indigente e estúpida chacina fraticida... 
Olhem ao redor. Não precisa nem ter grande imaginação para lembrar da histeria dos coliseus romanos antes de 404. Na arena, os párias e o restolho se degolando, no podium, o simulacro de realeza e de elite que conhecemos. Nas ruas e nos becos, o populacho se assassinando. Nos camarotes, os antigos brâmanes, os antigos santos e os antigos guardiões da moralidade se espremendo e se apalpando enquanto se preparam para as próximas eleições...  Tudo perverso! Tudo falsificado! Tudo imoral!!!

Na última linha, escrito com uma letra diferente, uma referência irônica à Pérsia e a Manoel Bandeira: vou-me embora pra pasárgada... quem sabe, por lá, eu não venha a ser amante da neta do rei...

Um comentário:

  1. Repórter da Globonews, que testemunhou ataque a cinegrafista, declarou ao vivo que Santiago foi atingido por bomba de efeito moral lançada pela polícia carioca. Voltamos às mesmas arquiteturas do terror engendrados pela tigrada de 64! Eterno retorno ou eterno chacalismo?

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