"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os piolhos da USP e o antigo HOTEL DE MÉDICIS...

Só recentemente soube (e até com certa nostalgia) que o antigo hotel onde a escória do  planeta costumava hospedar-se fechou as portas. Era uma das últimas espeluncas que maculavam o coração de Paris e que ainda por cima tinha para nós, du Brézil, um nome emblemático: HOTEL DE MÉDICIS, Rue St Jacques. Uma escada estreita e íngrime nos levava até o primeiro andar onde o porteiro da noite cochilava sobre um divã aos pedaços e onde sempre havia um gato malhado de olhos bem atentos... A última vez que estive por lá foi durante a guerra na "Iugoslávia". Até Jim Morrison, o adolescente porra louca do The Doors hospedou-se nele e o quarto número 4 foi quase transformado num tabernáculo pelos mitômanos de sempre... Posso dizer que foi nesse antro, naqueles lençóis e travesseiros vagabundos que soube verdadeiramente o que são os percevejos e o inferno em que esses simples insetos podem transformar a noite de um hóspede...

"... Salto em Luxemburgo, vou direto à rue Saint Jacques, 214, Hotel de Médicis. Médicis? Sim. Por 80,00 francos/dia, poderia chamar-se até Deodoro da Fonseca. Uma escadinha estreita e quase na vertical, uma norte-americana com brincos em forma de borboleta3, cartazes feitos à mão e colados às paredes.
Na pequena sala de recepção o proprietário acaricia um gato sem pedigri. Sinto-me bem ouvindo o ronrom do felino. Dois sofás antigos, quase medievais (o Le Goff já deve estar escrevendo sobre eles) e umas cinco ou seis mochilas amontoadas num canto.
-Bon jour messieur!
Meu francês é pior do que o dos albaneses de Kosovo que estão fugindo para cá. Ele entende ou finge entender o resto de minha frase. Coloca em funcionamento todos os cacoetes franceses, procura meu nome na lista de reservas, coça a cabeça, vira e revira as folhas da agenda e “lamenta”. Diz que os hotéis de Paris estão cheios por causa da páscoa.
-Da páscoa ou da guerra? 
Sei que fiz essa pergunta mais para aproveitar uma frase que conhecia do que para saber a verdade.
-Da páscoa. Reafirma ele, um pouco seco, não agressivo, mas, digamos, cartesiano. Depois fica em silêncio por uns instantes, olhando para minha bagagem, como se estivesse tentando arrancar dela algum significado à minha pergunta. Da páscoa ou da guerra? Realmente, essa pergunta não era nada pertinente e não tinha sentido algum. Sei que às vezes falo muita merda, sei disso, mas é absolutamente involuntário, como se meu inconsciente, sacana, estivesse permanentemente querendo colocar-me em dificuldades. Quando percebo já disse, e aí só me resta correr atrás do «já dito» e tentar remediar com teorias, racionalizações, filosofias, interpretações, mentiras, brincadeiras, etc. Neste caso, mesmo que eu fosse - digamos -, um refugiado, ou alguém envolvido com a guerra, por que iria fazer uma pergunta dessa natureza, sabendo que aqui todo mundo traz nos gens, histórias incríveis de chacinas, de martírios e de sofrimentos coletivos? E que para todo mundo, uma guerra, e principalmente uma guerra associada à limpeza étnica, é sempre um assunto conflitivo? Desço pelas escadinhas na vertical com o máximo cuidado para não despencar e quebrar uma perna ou deslocar o pescoço ou uma rótula. Me vêem espontaneamente à cabeça, imagens de uma mulher descendo de costas a pirâmide azteca; ângulos da grande muralha na China; as escadarias de Matchupichu; trechos dos mil e tantos degraus que em Katmandú conduzem os fiéis ao santuário de Swayambu; da escadaria insólita de Notre Dame ou das que, lá no Paraná, nos levavam em arruaça para debaixo dos chuviscos das Cataratas do Iguaçú. Sim, sim, a memória pode ser, entre outras coisas, o nosso
delator. Para que vejam, enquanto desço os vinte ou trinta degraus desta espelunca parisiense, sinto até o cheiro da escadaria interminável lá nas proximidades de Santiago de Cuba, de cujo topo se podia avistar, à noite, as luzes da Jamaica... Isto não é incrível? Escadas... escadas... escadas... Quando os homens descobriram a possibilidade das escadas, acreditaram que poderiam chegar «aos céus»". (página 61,62, Dymphne - a santa protetora dos loucos,  2007) 


E só resgatei esta memória depois de ler que o reinício das aulas da USP foi adiado por oito dias para que os sanitaristas tenham tempo de terminar a desinfestação de piolhos que está em curso  por lá, inclusive nas salas principais do prédio... Não lhes parece simbólico que os piolhos estejam invadindo nossas universidades?
Como escreveu outro precoce marginal: "Si la tierra estuviera cubierta de piojos como de granos de arena la orilla del mar, la raza humana seria aniquilada presa de terribles dolores. Qué espectáculo! Y yo, con alas de ángel, inmóvil en los aires, para presenciarlo!"

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