"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Lamentos e mais lamentos...

"Uma civilização que começou com as catedrais tinha que acabar no hermetismo da esquizofrenia". Cioran

Já que isto aqui é um MuRRo de lamentações, volto a atualizar dados e lamentos. Só nestes primeiros trinta dias do ano foram setenta assassinatos aqui no DF. Calculem os números lá nos Distritos Municipais, Estaduais e nas bibocas medievais perdidas nos cafundós dessa pátria... E setenta, não esqueçam, segundo as estatísticas da mídia e da polícia, que é a mesma coisa. Imaginem como seria se fossem computados os cadáveres que, por razões diversas, nem sequer merecem uma manchete e muito menos estar numa lista de estatísticas...
Ao invés de se decretar imediato Estado de Sitio e Situação de Emergência nacional, parte da Corte ainda nem retornou da Suíça, ainda nem digeriu a bacalhoada lisboeta e recém está no meio da primeira garrafa de rum e do primeiro charuto cubano... Ir a Davos! Ir a Lisboa! Ir a Havana neste momento! Que impertinência e que teatro inútil! A república e o Estado são cancros! É necessário inventar outro modo de gerenciar as nações e as cidades... Inclusive, porque acabam de doar mais de treze milhões para o carnaval brasiliense deste ano!!!

Mesmo estando no topo das nações menos alfabetizadas, estamos mandando um ministro para os EEUU especialmente para "discutir" questões de "espionagem"! Que ingenuidade! E que pretexto tolo para dar um rolé pelas boutiques e fazer um trottoir pelo Soho! Também estamos com outro ministro, este do judiciário, passeando e dando conferências pela Europa. O que teríamos a dizer aos europeus que não deva antes ser dito e praticado por aqui? Plagiando o ministro da justiça, Joaquim Barbosa lamenta-se em Londres que "nossas cadeias são um inferno". Um inferno é pouco, excelência!
Os governantes, os senadores, os padres, os ministros, as donas de casa, a presidente do  país e até os mendigos, todos reclamam e se queixam de tudo... mas a paralisia é doentia e geral. Todo mundo denuncia a zona vigente e generalizada, mas de uma maneira quase afrescalhada, como se a solução devesse vir do além, trazida por um coro de anjos eunucos... ou como se estivessem exigindo um milagre... Como se a responsabilidade fosse de um ente invisível, de um extraterrestre, de um diabo ou da mãe Joana...
E como resultado dessas demencias culturais e políticas, neste mês de janeiro, mês dos setenta assassinatos, as filas para marcação de consultas, para exames, cirurgias e etc. nos hospitais são imensas. Desde às quatro da manhã a população se aglomera em rebanhos nos pátios dos hospitais públicos, depois se coloca em filas indianas irracionais, absurdas, aviltantes e indignas, não deixando dúvidas de que o caos e a desordem político-social são também fábricas de sintomas e de psicopatologias. E mais, que o país está transformado num grande hospital, para não dizer hospício...

Na página 36 do  livro Do amor  e outros demônios, Gabriel Garcia Marquez, antes de ficar gagá, escreveu: "Sentiu o resfolegar de minotauro procurando-a às apalpadelas no escuro, o fogaréu do corpo em cima dela, as mãos de presa que agarravam a camisola à altura do pescoço e a rasgavam de cima a baixo, enquanto lhe roncava ao ouvido: 'puta, puta'. Desde essa noite ela soube que não queria mais outra coisa na vida..."

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