"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Apenas uma sexta-feira! (A arte de furtar)

A manhã desta sexta-feira não começou lá muito normal... Primeiro, a avenida bloqueada, depois a biblioteca fora de funcionamento para dedetização e, um pouco mais tarde, num café periférico, a batedora de carteira que investiu duas vezes sobre minha pobre bolsa. Branca, de uns 35 anos, com uma criança no colo e aquela cara de Maria Madalena no funeral de JC, estava acompanhada por uma mulher mais velha, possivelmente sua instrutora. A abordagem clássica: um olhar de sedução, um esbarrão, a criança como escudo, uma tossida para encobrir o ruído do zipper e pronto: lá vai a carteira e a câmera do otário! Sorte que uma de minhas primeiras leituras na vida foi exatamente A arte de furtar. O que mais me impressionou nos segundos durante e posteriores à cena, foi o olhar da criança, um garotinho de no máximo um ano e meio. Olhou-me no fundo dos olhos, tão decepcionado como a mãe e como se soubesse de tudo o que estava acontecendo. Treinado assim em serviço, imaginem o equilíbrio emocional e a competência profissional desse pirralho quando tiver uns sete anos...
Ela baixou o rosto, olhou para a megera mais velha como se justificando e caiu fora ruminando seu fracasso. 
Achar que essa profissão é fácil é puro engano! Uma tremida a mais e pronto, já era! Uma dorzinha de cabeça, uma febre, uma alteração no sistema nervoso e pronto, as mãos já não obedecem como deviam e lá se vai sã e salva a presa. 
Quanto à vítima (no caso, eu), pior do que perder a carteira ou a câmera, é saber que só foi escolhido porque estava com cara e pinta de babaca e de otário! Aquele ali - imaginei a velha dizendo - tem o perfil completo de um idiota e de um lunático. Avante! Podes roubar-lhe até os dentes que não perceberá!
Mesmo assim, por mais estranho que pareça, simpatizo com essa gente. São os verdadeiros representantes do anti-homem, do anti-burocrata, do anti-bundão e fazem uma espécie de contraponto 
aos ladrões oficiais, protegidos pelo sistema, pelas meretrizes leis de mercado e pelo apostolado do progresso.
Sim, esses mãos leves e gatunos estão permanentemente de lazer e analisando as multidões bestificadas, a sinecura dos poetas e os proletários da moral que, como dizia o filósofo, vão perfumados e sorridentes por aí de compadre a compadre.  Cagam sobre todas as éticas e sobre todas as verdades, principalmente as que dizem respeito ao céu ou ao inferno ... pisoteiam todos os princípios. Roubam! Acreditam que roubar é nosso verdadeiro "pecado venial". Estão convictos de que todas as ciências, filosofias, psicologias e até a astrologia, o que pretendem é dar ao sujeito em vias de civilidade, a ilusão de que ele não é, na essência de seu DNA, apenas um mísero, pobre e renegado ladrão!

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