"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Brasília, 33 graus...

Os termômetros fervilham. Brasília vai além dos 33 graus. Quem pode se acomoda nas varandas, nas garagens, nas sombras das mansões ou nas redes entre uma aroeira e outra.., mas o grande populacho, aquele que precisa ganhar os trinta reais do dia, se arrasta de um lado a outro sob esse sol tremendo, faltando-lhe o ar e com o mesmo entusiasmo dos cortejos para a forca, suando, resmungando, bufando e amaldiçoando não só a natureza, mas a turma que resolveu inventar esta cidade no meio do nada e do deserto. Deserto onde nem os nativos quiseram fincar morada, imensos e inúteis latifúndios de pedras ardentes e de árvores retorcidas cuja zoologia foi se constituindo sob a inspiração e o isolamento fatalista dos lobos guarás, das serpentes e de algumas outras espécies milenarmente acostumadas à secura, ao mormaço e à solidão. O sol parece atingir os ossos. Cada prédio lembra um aquecedor no meio dos dois milhões de malditos motores que não param de rugir nas esquinas. A noite chega como uma fornalha. Para qualquer lado que se olhe, Brasília, com todo o fatalismo de sua solidão, se apresenta como uma odisséia infernal e plena de labaredas. Na janela do outro lado da rua um casal com ar de pobres diabos esforça-se para respirar. Gotas robustas de suor despencam de suas sobrancelhas. Não há o que fazer. Não há fontes jorrando barris de água Perrier, não há correnteza fresca onde se possa enfiar os pés, com suas veias dilatadas, não há 
árvores imensas e frondosas onde recostar-se enquanto os fogaréus não cessam e enquanto a brisa da madrugada se digne a baixar sobre o asfalto incandescente. De um túnel tenebroso e labirintico nos chega a frase demagógica: "Desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais..."   
Balelas! Alguém atravessa com calma e com desconforto os jardins carbonizados com aquele ar meditabundo e preocupado de um homem a quem - como diria AFS - nasceu um furúnculo sob o colarinho.  

3 comentários:

  1. Senhor... Escreve muito bem.

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  2. Bazzo, seus detratores que se fodam!
    Mais um texto magistral sobre essa cidade tão bela e paradoxal: Brasília...

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