"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Ainda pré adolescente, fui enganado pela literatura e por David Nasser...


Os homens de minha geração (1949) com certeza leram ou ouviram falar de um pequeno livro publicado nos anos 60 e intitulado: Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Esta foi praticamente minha primeira leitura erótica e talvez a leitura mais fraudulenta de todas. Daquela época, com a pólvora da guerra ainda levitando por sobre o mundo, até a semana passada, acreditava que o livro era um relato das histórias/memórias de Giselle Montfort, uma espiã sensual da Resistência Francesa que durante a II Guerra Mundial usava seu corpo para arrancar informações dos soldados alemães. Só que era tudo mentira. Tudo ficção engendrada por um jornalista libanês-brasileiro chamado David Nasser, um cara que vivia no Rio de Janeiro e que sequer conhecia Paris. Os textos saíram publicados inicialmente em capítulos no jornal Diário da Noite. Em função de seu enorme sucesso, logo o editaram em forma de livro de bolso, cuja vendagem nas bancas de jornais chegou a mais de meio milhão de exemplares. Confinada num cabaré, lembro que a tal Giselle fazia o diabo com seu corpo e com suas duas esplendorosas e poderosas coxas, não apenas com os chefões da Gestapo, mas principalmente com meu imaginário. Papou desde os soldados rasos e vagabundos até o velho Fuhrer e seu lacaio mais famoso o senhor Himmler. Como milhares de pré adolescentes e de adolescentes daquela época, lá no terceiro andar daquele casarão italiano, enquanto os tigres rugiam no Parque Nacional que ficava do outro lado da estrada, fiz viagens alucinantes com essa fictícia espiã escondida por debaixo de minhas cobertas. 
Mas o mais curioso dessa história, é que hoje, saber que foi tudo um truque comercial para alavancar um jornal que estava falindo, uma estória escrita por um mascate farsante que virou jornalista e depois compositor, e que mais tarde apoiou a ditadura militar.., por incrível que pareça, não altera em absolutamente nada as lembranças, os delírios e o frenesi daquela época. Fato intrigante, pois pode até insinuar e sugerir que mesmo nossos sentimentos e desejos mais "genuínos" e "verdadeiros" podem estar apoiados e sustentados sobre mentiras, sobre burlas e sobre ficções. 

2 comentários:

  1. aqueles livrinhos de faroeste que vendiam pra caramba, bolsilivros ou livros de bolso de bang bang, eram também escritos por brasileiros, sob pseudônimos, todo mundo ainda acha que eram autores americanos ou ingleses.

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  2. até aquele Keith Oliver Durban da editora monterrey. espionagem em bossa nova. tbm pensava que existia mesmo e morava numa boa lá no hawai. que casete.

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