"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 26 de maio de 2013

Por que querer ser feliz... quando a gente pode ser normal?


No Teatro Nacional de Marseille ainda está em cartaz O tartufo. É impressionante como damos uma atenção especial  àquilo que identificamos vivo e imortal dentro de nós... Encenada pela primeira vez há uns 350 anos, continua misteriosamente fazendo sucesso..., apesar da tartufada ter se multiplicado, sofisticado e dominado ainda mais o mundo... Prova de que tanto pedagógica como educativamente nem o teatro e nem a comédia servem para coisa alguma...
E aqui ainda se fuma até charuto. O combate ao fumo deve ter ficado restrito aos almofadinhas de Paris. As calçadas cheias de bitucas que, cedo ou tarde, o vento arrasta para dentro de nossas córneas, parecem querer justificar: "on ne meurt qu une fois et c'est pour si long temps..."
Dou a última e longa caminhada pela cidade depois de comer um verdadeiro couscous berbere. Saber que não se voltará mais a um determinado lugar nos dá quase uma sensação fúnebre. São 17:30 horas e o sol ainda está alto, com a turistada indo e vindo por aí em bandos, tagarelando coisas quase infantis. A máquina internacional do turismo se organizou de tal maneira que a poupança e as economias anuais dos ingênuos turistas acabam irremediavelmente caindo em seus cofres. Aviões, trens, navios, passagens em prestações, milhas, hotéis, travelmoney, bancos, seguros, restaurantes, pacotes, souvenires, taxis, museus, fábricas de seda, perfumes, diamantes etc. Cataratas do Iguaçu, Rio Nilo, Taj Mahal, Torre Eiffel, Big Ben, Cristo Redentor, Terra do fogo, Cassinos de Las Vegas... Nepal, Transiberiana, Terras sagradas de Israel... Tudo mapeado e mistificado conforme o "desejo" e o imaginário doméstico do turista babaca. Até os guias, editados muitas vezes pelas mesmas máfias, são um amontoado de inverdades, exageros e mistificações, para não dizer propaganda enganosa. Nos anos 80, ir a Katmandu era praticamente uma façanha igual a de Marco Polo, hoje, é comum encontrar o porteiro de nosso prédio passeando sobre um elefante nas estradas da Tailândia ou nossa empregada doméstica tomando chá em San Petesburg, no mesmo café em que Dostoievski escreveu Os irmãos Karamazov... A globalização e essa falsa democratização mediocrizou até as andanças. Mas é isso aí..! Se a própria manada volta para casa feliz, quem é que tem moral e argumentos para contestar?  Um exemplo vivo do cinismo literário é a tal da rue Canaviére, logo ali, atrás de meu hotel. Uma vintena de escritores de peso que passaram por aqui, dedicaram-lhe um parágrafo ou uma página transformando-a quase em algo metafisico. E é apenas uma rua por onde cruzam em desordem tranwyas, ônibus, pedestres, motos etc., etc, e por onde o famoso mistral, vindo lá do vieux port, ganha velocidade para levantar em redemoinhos a sujeirada do dia. É nela que os mendigos se acomodam bem de manhã, quase numa messe noire, esperando, além dos clientes, os primeiros raios do sol. Fotografei quase todos, com exceção, evidentemente, daqueles que deixaram claro em seus olhares que se ouvissem um clic, me quebrariam a cara e colocariam minha vida em risco. Um deles, duvidando de minha cristandade, chegou a lembrar-me desta frase de Spinosa: "Les hommes sont plus portés à la vengeance qu'à la pitié..." Tendo em vista o mosaico de nacionalidades e também os dois mil quinhentos e tantos anos da cidade, seriam "geneticamente" o quê? Gregos? Armênios? Árabes? Romanos? Turcos? Italianos? Argelinos? Africanos..? Procedam de onde for, dá no mesmo. O que é clinicamente importante é que nesta secular cité phocéenne, há mais desvairados por metro quadrado do que se poderia imaginar... 
Dizem que ali no número 66, no subsolo do Grand Hotel, existia o cabaré Tyrol, frequentado por Jean Cocteau. Mas, sinceramente, qual a importância dessa notícia? 
Blaise Cendrars dedicou algumas páginas sobre o bas-fonds de Marseille, que, naquele tempo, segundo ele, era um dos maiores do mundo em putas e em distribuição de ópio. Atualmente, apenas vez ou outra, se sente por aí o cheiro de um ashish vagabundo e nos umbrais de alguns prédios velhos, algumas meninas de aluguel limpam as unhas sem muito entusiasmo. Todo mundo sabe que foram completamente eclipsadas pela putaria oficial. Walter Benjamim, aquele judeu deprimido que ainda faz as professorinhas brasileiras ficarem molhadas quando estudam seus textos, também passou por aqui fugindo dos nazis. Antes de meter-se uma over dose de morfina nas veias, lá na fronteira com a Espanha, rabiscou algumas linhas sobre as colinas áridas que se avista por todos os lados.., acho que não conheceu canebiére, senão... Flaubert, André Breton... enfim, a trupe toda delirou por aqui... Inclusive o Mirabeau ficou preso ali no Chateau D’if... etc., etc... Et moi avec ça?
Um homem vestido de preto, sempre acompanhado por sua mulher, também de preto, tem tocado sax durante esses vinte e tantos dias por aí. Quando ouve o barulho das moedas caindo em seu chapéu, parece dar mais fôlego e vida à melodia que está executando. C'est l'argent! É o dinheiro que move moinhos e as hipócritas engrenagens do mundo. Até a simpatia e a esperança estão baseadas na Bolsa de Valores e nele, nesse pacote de papel imundo que, para proteger-se dos ladrões, todo viajante leva amassado por debaixo das cuecas. Realmente é um mistério que muita gente ainda espere alguma coisa do Estado, dos patrões e de deus...
Os cento e dezesseis degraus da Gare Saint Charles me desafiam para a subida... E não conheço nenhum atalho...

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