"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Como diria Guerra Junqueiro: É tudo o que há de mais vil, desde o ventre do sapo à baba do réptil...

Brasília não e só um mar de lama, como no passado. Agora, virou também um mar de automóveis. A grande maioria novinhos em folha, recém batizados, grandalhões, comprados em setenta meses, geringonças que as famílias exibem diante das mansões ou ao lado dos barracos. Alguns com um escapulário dependurado no retrovisor, outros com uma imagem da virgem Maria colada no para-brisa. É tudo o que se sonhou ter na vida. Signo de status, sucesso, realização e até de graça divina. Sim, em algumas seitas da modernidade não se pede mais para ir aos céus, ficar pasmado ao lado direito do grande charlatão do universo, como outrora... O que se quer é o último modelo da Ford, um cinco portas da Toyota, uma C10 com tração em todas as rodas... Sei de alguns desses idiotas que até gostariam de, ao morrerem, serem enterrados dentro de seus automóveis... Oito horas da manhã a cidade parece um formigueiro trêmulo e imóvel... Um inferno de motores, de buzinas, de semáforos, de desvios... cada carro com um  panaca no volante... Indo para onde? Lugar nenhum! Todos os destinos são falsificados. Perda de tempo. Aquele vai para o jornal, mas se sua coluna de amanhã saísse em branco, ninguém se queixaria. Dez ou vinte mil vão para os ministérios... Fazer o quê? Nada. Um cafezinho aqui, uma mijada acolá, um telefonema, outro cafezinho, outra mijada, um pão de queijo e outro telefonema. Ideários de futilidades! Se fechassem 70% dos ministérios, ninguém sequer perceberia... Milhares vão para o Congresso Nacional... Fazer o quê? Nada! Marionetes de um absolutismo disfarçado! Outros milhares vão para as inúmeras universidades... Fazer o que? Nada, ou, na melhor das hipóteses, decorar parágrafos ou datas que não lhes servirão para grande coisa... Alguns, é verdade, até vão discutir Le Corbusier, Adorno e Chomski com seus mestres..., mas para quê, se essa discussão não tem até agora servido nem mesmo para se aprender a como organizar uma mísera cidade? Antros de reuniões gongorianas! Os estacionamentos das clínicas e dos hospitais, então.., ficam abarrotados o dia inteiro, principalmente os das cardiológicas. Exames pra cá e diagnósticos pra lá. O que acontece com o coração dessa espécie? Como já lhes disse: a longevidade é um presente de grego que só beneficia às multinacionais de medicamentos e de fraldas... Nada é mais melancólico do que ver, lá pelas 18 horas, aquelas multidões de velhinhos atravessando cautelosa e tropegamente as ruas, cada um com sua sacola de pão, leite e remédios... No passado, liamos Schopenhauer e Cioran para manter viva a consciência da trágica condição humana, hoje, simplesmente vamos à janela ou atravessamos o quarteirão... Enquanto isso, o genocídio nacional continua e seiscentos ou setecentos parlamentares ficam trancafiados a semana inteira logo ali no final da esplanada... Fazendo o quê? Negócios particulares! No último mês não fizeram outra coisa além de assistir impávidos à profunda e transcendente discussão filosófica sobre o matrimônio gay e sobre a maldição que alguma sádica divindade teria lançado sobre os africanos... Bah!!!.., sem se darem conta de que todo matrimônio é uma idiotice e de que a referência à tal maldição não passa de uma bobagem garimpada num compêndio de demências...

3 comentários:

  1. Parodoxo: como esse maconheiro pode ser tão lúcido?

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  2. MÔNICA PRADO TORRES14 de abril de 2015 07:14

    Adoro ler os textos desses "maconheiros"... Com certeza é bem mais salutar do que ler os jornais e revistas da grande mídia...

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