"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 20 de abril de 2013

A escravidão ao verbo, ao texto e às idéias...


Foi por pura casualidade que reencontrei (na mídia) um conhecido e amigo dos tempos mexicanos. E tempos mexicanos significa dizer trinta e tantos anos atrás. fazíamos parte, na UNAM, do mesmo grupo de "marginais" que travavam uma batalha feroz e inútil com a academia, com o Estado, com  a sociedade e, na verdade, com quase tudo... E nosso delírio chegava a tanto, que por pouco não fomos à Nicaragua lutar contra Somoza...
Agora, doutor, estava coordenando uma mesa repleta de outros doutores, todos pomposos, e fazia a apresentação (cheia de elogios) de um dos mais conhecidos e renomados filósofos da atualidade que, aliás, estava presente, e que não escondia os pequenos tremores neurológicos que a vaidade desencadeia. Careca, mas com a mesma vitalidade de outrora, meu amigo, com a mesma coreografia daqueles tempos da Calle Copilco, recitou seu sofisticado e culto panegirico durante quase meia hora... E foi aí que tive um dos mais importantes insights de todos os tempos: como é ridículo o discurso que se fazia quando jovem, dito agora que se é velho. Como soa teatral e falso aquilo que se dizia com soberba e tesão há quarenta anos atrás quando é dito agora, quando se está pleno de desencanto e de desprezo! Durante a escuta, senti que minhas orelhas pegavam fogo! Fez as mesmas deferências, o mesmo enfoque, as mesmas "brincadeiras" eruditas... Citou os mesmos personagens de outrora: Borges, Spinoza, Cioran, Nietzsche, outros três ou quatro ácratas já quase esquecidos... Voltou a atacar a academia (mesmo cercado de professores), fez a ironia clássica contra o fanatismo político e religioso, contra o Estado, contra o matrimônio... Fez sarcasmo com a escola de Frankfurt, com os sectários, com o método, com a esperança em algo... E a plateia, composta de homens e mulheres, jovens e velhos, não se movia. Parecia saber que eram apenas palavras de um homem já na ante penúltima estação, uma performance intelectual, uma espécie de reza invertida, um ensaio para um poema niilista... ou apenas o viés da desbundada e destroçada juventude dos anos 70 e que portanto, como não havia servido para nada, nem alterado coisa nenhuma nos últimos cinquenta anos, não seria agora, quando tudo está mais do que dominado, que tamanho milagre viria acontecer... 
Em síntese: tê-lo assistido naquele ritual pra lá de circense e melancólico, foi um choque. Me identifiquei de imediato. Senti vergonha! Como ele, não fiz outra coisa nas últimas décadas a não ser reeditar o mesmo papo furado, supostamente "libertário" e supostamente na contramão suicida da história... em vão e tingido de puerilidade! 
Enfim, se essa casualidade serviu para alguma coisa, foi para fazer-me compreender basicamente que: um homem com mais de sessenta que tenha algum tipo de lucidez e de dignidade, não deveria fazer mais parte desse marasmo compartilhado e retirar-se desse jogo vazio e patético que é a vida... ou, pelo menos, já seria uma grande coisa, calar definitivamente a boca... 
(ilustração El Roto)

2 comentários:

  1. Rogério Rodrigues21 de abril de 2013 20:01

    Pelo menos você ajuda alguém a ter um pouco de lucidez em meio a esse marasmo. Eu mesmo gostaria de agradecê-lo imensamente pelas suas fabulosas reflexões.

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  2. De vez quando nos pegamos assim, exigindo mais de nós mesmos e nos vendo nos outros e em situações tão estranhas que sentimos exatamente o que você sentiu. Mas cada um vem dando a sua contribuição ao mundo seja ela qual for. A maioria não acrescenta muita coisa mesmo, e se repetem e repetem indefinidamente. Mas alguns poucos conseguem ver mais, sentir mais e transformar. Um milítrimo que seja, já é um avanço. Esta consciência crítica que você esboça é a mais importante. Ao escritor não é dado o direito não escrever, de não dizer. Avante, companheiro!!

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