segunda-feira, 25 de março de 2013

"A ordem antiga das sociedades humanas repousa sobre três homens que são suas pedras angulares e dos quais a idéia social contém um pouco de cada um: o Rei, o Padre, o Verdugo" (Joseph Maistre)

Foi quase inacreditável ver aqueles sete ou oito políticos, todos de ternos pretos e com caras de compaixão (inclusive a presidente da república), assistindo a missa no RJ, em homenagem ao sétimo dia da desgraça dos trinta e tantos que morreram afogados no barro dos deslizamentos. Não parece possível! Ou trata-se de um cinismo que beira à psicose ou é uma alienação e uma espécie da autismo ainda não diagnosticado. Como? Como é possível um teatro desses depois de toda a negligência e a irresponsabilidade de que eles próprios foram atores nos últimos anos? Cadê os milhões que foram destinados para sanar aquele mar de lama e aquele pedaço da Idade Média que não quer capitular? E os familiares das vítimas, onde estavam durante a missa? Durante essa afronta à dignidade dos defuntos? Durante o blábláblá conivente do padre? Sinceramente, gostaria de estar lá só para ouvir que parte da velha e caduca bíblia o pároco foi resgatar para a oportunidade e para puxar o saco daqueles senhores colocados num pedestal pela ignomínia do voto... Deve ter reencenado... sei lá,.. o velho e chato papo de Lázaro, por exemplo. Alguma coisa sobre os filhos de Davi, algumas bobagens do Levítico, uma frase tola sobre Jeremias na prisão... Balelas!, que não tem nada a ver com a realidade. Uma ficção demencial dessa arca tosca e prestes a naufragar envenenada por tantas metáforas descontextualizadas e por tantas e irresponsáveis anedotas... 
E os engravatados lá. Em pé. As mãos sobre os genitais. Eles próprios como pontífices ilustres, como estátuas, fazendo pose para os fotógrafos e fingindo ouvir a baboseira canônica. Sabem o que é levar no bolso as chaves dos cofres de um município? De um Estado ou de uma nação? Significa ter a chave dos presídios, do judiciário, dos bordéis, de cada uma das residências, das basílicas e até mesmo da consciência do populacho... 
E não há remédio. Tudo está dominado. A praga se eternizará pela via genética, hereditária e bancária... O estrago visível das ruas e do coletivo não é nada se comparado ao estrago que já está consolidado no sistema nervoso central da turba...
Mesmo assim, seria cômico e até meio revolucionário se o padre, num gesto inédito entre os seus confrades, e para não ser tão descaradamente servil diante dos "poderosos", deixasse de lado o velho livro negro e recitasse pausadamente este trecho de Guerra Junqueiro: 

“... Era natural. O Deus de Jerusalém, castrado, feroz, porco, cheirando a alho, um Deus cujo reino na geografia celeste, tinha as dimensões do principado de Mónaco, encon­tra-se subitamente no trono de Júpiter, César todo domina­dor de tudo quanto existia - porque tudo fora feito por ele!
Estonteadora vertigem! E a quem devia tudo isso, no fim de contas? Ao Rabi, a Jesus, ao Nazareno, ao filho que odiava, porque Jeová, o impotente, não era seu pai, ao filho sublime e desprezado que ele deixou morrer atroz­mente numa cruz, sem um olhar de conforto, sem uma palavra de misericórdia!
- Abandonas-me, Pai? - soluçava Cristo, no estertor. E o Pai  - eunuco, a quem a Alma Humana, a grande Criadora eterna, tinha dado um filho, deixou-o agonizar miseravelmente, etnicamente, naquela noite do Gólgota, em que o maior de todos os homens sofreu divinamente a maior de todas as ignomínias.
Quem sabe se no minuto supremo, no crepúsculo trágico da vida para a morte, o Rabi, Jesus Cristo, se não arrependeria amargamente de ter levado aos ombros a cruz redentora até ao cimo do Calvário?
Que seria feito da humanidade se o Rei dos Judeus, no caminho do martírio, por um golpe de filosofia e de bom senso, deixasse cair por terra a sua cruz, exclamando: Não posso mais. O heroísmo é uma asneira. Como Deus, vou ser crucificado aos 33 anos de idade, o estio da vida. Como homem, e é isso o que eu sou, posso gozar ainda uma tranquila e dilatada existência. Portanto, meu caro Pilatos, entendamo-nos. Jerusalém quer uma vítima: ai está Barrabás. Você precisa dum secretário: aqui estou eu!
Se isto sucedesse, se Cristo tivesse sido um homem de bom senso, a civilização e a história da humanidade seriam, melhor ou pior, mas absolutamente, diversas daquilo que têm sido há quase vinte séculos.
E foi ele, o filho renegado e crucificado por um Pai quem lhe deu, com o domínio do Céu, o império do mundo!
Jeová num relance compreendeu tudo. Os deuses são inteligentes. Há mesmo alguns que foram grandes homens. Jeová reconheceu o Filho só depois de morto. Vivo odiava-o. Porquê? Tinha-lhe medo..."
( Ilustração: El Roto )  

Um comentário:

  1. Rogério Rodrigues26 de março de 2013 19:46

    Para você ver, Ezio, que as "relações vaselinas", o "caráter ambíguo", o "bom senso", muitas vezes, são inevitáveis...só resta o consolo de que, mesmo para o mais poderoso dos homens neste planeta, basta uma doençazinha, que aparece do nada, ou um evento qualquer, como um pedaço de telhado solto que espatife sua cabeça, para deixá-lo inerte. Como diria Jesus a Pilatos "você não teria poder nenhum sobre mim se os Céus não permitissem"...Isso, de qualquer maneira, não quer dizer que devamos esperar pela justiça divina deixando de lutar pela ética humana, mas lutemos com inteligência e dentro das possibilidades...e isso você realiza com maestria!!! Jesus, entretanto, assim como Giordano Bruno, diferentemente de Galileu, preferiu deixar a mensagem deles...

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