"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A LITURGIA AO REDOR DO CRACK...

O mendigo K., atravessava a cidade a pé quando nos encontramos. Estava com cara de insônia. Chuviscava. Um chapéu de pano preto escondia-lhe parcialmente a testa. A mídia inglesa denunciava o Vaticano de ter faturado bilhões em negociatas escusas com Mussolini... enquanto da garagem de cada prédio saiam filas de carros com funcionários públicos ainda sonolentos. Fez uma ironia qualquer com aqueles escravos do estado e do relógio e desenrolou uma página de jornal que levava em baixo da camisa para mostrar-me a foto de um sujeito em transe acendendo seu improvisado cachimbo de crack...
- Veja a expressão de delirio e de felicidade desse cara!  - Disse, olhando demoradamente para aquele sujeito entrincheirado num beco, os braços e as mãos... puros ossos, uma ferida imensa nos lábios... E prosseguiu:
Quê porra de mecanismo é esse que a simples fumaça de uma pedra pode causar? O quê acontece verdadeiramente nas carnes do pulmão e nos ligamentos cerebrais quando recebem a fumaça? Quê porra de química é essa? Quando é que saberemos a verdade a respeito do mundo que trazemos por detrás de nossos ossos? 
E agora, querem curá-los! Logo agora que transcenderam a família, o trabalho, a mesa com oito talheres, as camisas engomadas, o papel higiênico com cheiro de sândalo... O medo de morrer! Logo agora que conseguiram trocar o travesseiro por um tijolo... Curá-los de quê? Dessa "felicidade"? Oferecer-lhes o quê depois de curados? Como convencer-lhes que o tédio e que a melancolia doméstica são mais saudáveis que o frenesi do abismo? Ou que a longevidade é mais honrada que a morte precoce? 
Veja como dizem NÃO a toda liturgia burocrática e a tudo o que o establishment lhes oferece:

O doutor: em dois meses você estará completamente desintoxicado e curado!
O governador: Apenas queremos ajudá-lo a resgatar seu papel de cidadão!
O político: Te esperamos lá no comitê, para filiar-se ao partido!
A freira: Deus e seu bondoso filho, estão prontos para recebê-lo de volta!
O macrobiótico: Experimente a dieta dos seis dias de arroz integral!
Um bestalhão beato que passa pela rua: Volte para sua mãe, para seu pai, para seus irmãos!
O comerciante: Curado, podes contar com uma cesta básica mensal!
O anti-psiquiatra: Agora já podes fazer o caminho inverso, do Self para o Ego!
O pastor: E afastaremos a satanás de teu corpo! 
A mãe: Quero que você retorne para casa e para a família!
O presidente de Cingapura: Nesses casos, só a pena de morte!
A assistente social: A partir de agora você será outro!
O sindicalista: Vamos orientá-lo a recolher o ISS!
O jornalista: O que você está sentindo neste momento? É grande sua tristeza? Quando poderemos fazer uma matéria?
O advogado: Por trinta pedras, entro com um habeas corpus! Aliás, com um habeas ossus!
A polícia: Se não sair dessa, te apagaremos na próxima chacina!
O psicólogo: Fale-me um pouco de seu desejo e de sua infância!!!
O cara da funerária: Aqui estão nossos telefones...

Desintoxicado de quê? Cidadão de quê? Partido porra nenhuma! Quê Deus? Quê mãe, que pai, que irmãos? Quê cesta? Quê Satanás? Quê casa, quê família!? Não quero ser Outro! ISS um caralho! Não faltarão chacinas! Desejo? Infância? Quê infância!???  

Fez um longo silêncio, tirou o chapéu, colocou a mão sobre meu ombro e desembuchou:

Aqui entre nós, sem demagogia e sem falsos republicanismos, toda essa gente já era órfã de tudo e já estava "perdida" bem antes de aparecer o crack. Enquanto você e os de sua trupe bebiam capuchinos com pão de ló por aí, às cinco da tarde, cada um daqueles miseráveis já estava apodrecendo em suas tocas ou em seus cortiços. Como votavam e como serviam para falsificar estatisticas, fazia-se de conta que eram "soberanos", donos de si, que  podiam injetar-se nas veias até merda pasteurizada, se quisessem...  Mas, quando, já na fase terminal, vieram exibir nas ruas sua podridão e suas misérias.., então todo mundo começou a ficar comovido, irritado, indignado, envergonhado... Um surto de humanidade brotou repentinamente de nossos corruptos e descompensados corações e lhes oferecemos de graça essa purificação compulsória, essa espécie de passagem de volta para nosso meio, para esta outra parte, a "parte boa" do manicômio social, da qual já estavam excluídos bem antes ainda de nascerem...
(A ilustração é do chargista espanhol El Roto) 

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