quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A podridão dos gestos e das palavras...

Pawla Kuczynskiego

Pelo "quase nada" que sei do caráter feminino, a presidente Dilma deve estar profundamente envergonhada de ter feito em um dia, toda aquela encenação na tv a respeito da redução na conta de luz, e em outro, ter liberado o aumento do preço da gasolina. Pelo menos deveria voltar à tv e lamentar essa putaria econômica que não tem fim... Perguntei ao mecânico quanto vai economizar com energia em sua casa: dois reais e vinte, respondeu no meio de uma pândega. Como ele será a grande maioria. Eu mesmo, economizarei três reais e dois centavos! E não adianta esses pulhas orçamentistas saírem dizendo por aí que dois reais e vinte é muita coisa para os fodidos. Não é! Não é nada! Uma miséria! Troco que se dá para mendigos! Nota que se usa para recolher o cocô dos cachorros nas entre quadras... Ah, mas a indústria vai se beneficiar, e muito! Isso é verdade...
E a malignidade que toda essa mentirada causa nas massas, de cima a baixo, nem é de ordem só econômica, ou monetária, mas de ordem psíquica. Diante de tantos cinismos, descaramentos e golpes, o sujeito vai mentalmente se prostituindo e se sentindo uma puta, pois já não tem mais elementos para eleger um porto para onde navegar e muito menos um lugar onde investir sua libido. Quer queixar-se, ajustar contas, vingar-se, matar alguma coisa, mas não encontra ninguém onde depositar sua ira e sua cólera! Esse é exatamente o poder da burocracia! O tirano arranca o crachá do pescoço e pronto, passa a ser um sujeito comum. O monstro é invisível e intocável, uma suposição, uma sombra que ronda... Tanto é que até nossos militantes profissionais já perderam as ilusões e as esperanças com ele. Preferem investir no além... Conheço vários que, mesmo com nossas cadeias transbordando de loucos, criminosos, injustiçados e até inocentes, passam seus dias militando em favor dos presos palestinos, dos condenados cubanos, dos encarcerados chineses, dos que apodrecem nas prisões gringas... Grupos que, mesmo sabendo que nossas periferias são verdadeiros ambulatórios e depósitos de desenganados, que a miséria intelectual predomina em grande parte do território e que a matança cotidiana ao nosso redor é inacreditável... passam seus dias militando em defesa dos pobres malis, dos pobres curdos, dos massacrados afegãos, dos desgraçados indianos... Aqui em Brasília, só no mês de janeiro, foram uns cinquenta assassinatos, todos brutais e por migalhas... mesmo assim, encontrei esses dias uns militantes fazendo uma manifestação contra a violência no Egito. Somos universalistas - diziam. Tudo bem. Em alguns estados brasileiros - Pernambuco, por exemplo - o índice de assassinatos de mulheres é um dos mais altos do mundo... Na semana passada, me deparei com sete ou oito meninas protestando contra o estupro na Índia. Amanhã elegerão o presidente do Senado e o presidente da Câmara, dois nomes que não poderiam comandar sequer o condomínio de um bordel de garimpo... Silêncio nacional! Somos uma das únicas nações que, apesar de sustentar uma dúzia de partidos políticos, mixurucas, parasitários, moralistas, golpistas, malandros... não tem oposição. Formam uma confraria. A confraria dos partidos. Só com o dinheiro que é repartido mansalmente entre esses bandos, daria para revolucionar de A a Z todos os setores dessa vadia vida tropical... 
Todas as correntes de militância estão extremamente preocupadas com a política da Venezuela ou da França, com o inverno árabe... O país está com milhares e milhares de imigrantes clandestinos de toda a América Latina, Haiti e até mesmo europeus, trabalhando como escravos ou engrossando as filas em direção a nossos tristes manicômios, mas mesmo assim nossos militantes só falam na política migratória de Obama, para a Amérika... Enfim, somos uns idiotas! Perdemos as esperanças nas coisas que estão sob nossas ventas e, para não perder o status ou as verbas públicas, seguimos na luta teatral por qualquer ficção, basta que ela esteja fora de nosso alcance. E quanto mais bizarra, mística e impossível, melhor... Saravá!!!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O gato, esse malandrim privilegiado...

Pawla Kuczynskiego


Gatos matam até 3,7 bilhões de pássaros por ano nos EUA
Além das aves, eles predaram até 20,7 bilhões de mamíferos

Nas ilhas, os felinos já provocaram a extinção de 33 espécies
RENATO GRANDELLE
O Globo - Publicado: 29/01/13

Levados a praticamente todas as regiões do planeta pelo homem, o gato conquistou uma legião de adoradores e presas. O felino está entre as cem espécies invasoras que causam maior estrago no mundo. Suas garras contribuíram, mesmo que indiretamente, para a extinção de 33 mamíferos, aves e répteis em ilhas oceânicas, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza. Em áreas continentais, porém, seu impacto sempre foi negligenciado. Um estudo, publicado esta semana pela revista “Nature Communications”, dedicou-se a este levantamento. E mostra que os bichanos matam anualmente entre 1,4 bilhão e 3,7 bilhões de pássaros e entre 6,9 bilhões e 20,7 bilhões de mamíferos apenas nos Estados Unidos.
Segundo a estimativa, cada gato americano mata 1.443 bichos por ano — ou 3,95 por dia. O número de aves predadas foi considerado o mais preocupante. Seria quatro vezes maior do que os registrados até hoje. Aves nativas do país, como o pisco-de-peito-vermelho, estão entre as mais ameaçadas pela fome felina. Na área continental dos EUA, há mais animais mortos pelos felinos do que por atropelamento, colisões com prédios ou envenenamento.
— Os gatos são as maiores ameaças à fauna americana — revela Pete Marra, pesquisador do Instituto Smithsonian de Conservação e Biologia (SCBI) e coautor do estudo, que contou com a colaboração do Serviço de Pesca e Fauna dos EUA. — Esperamos que a grande faixa de mortalidade indicada por nosso levantamento convença os donos de gatos a mantê-los dentro de casa e alimentados.
Gatos selvagens matam três vezes mais
Além dos pássaros, a dieta dos bichanos abrange de ratos a coelhos, passando por esquilos. Os gatos ferais — que vivem soltos na natureza e dificilmente se adaptariam ao contato com humanos — são os que mais dependem da caça. Eles predariam até três vezes mais animais do que os gatos com dono.
Marra, porém, ressalta que a mortalidade provocada por felinos urbanos também é digna de apreensão.
— Este levantamento deve servir de alerta para políticos, autoridades ligadas à preservação de animais e a cientistas para o grande perigo causado por estes felinos — enfatiza.
Em regiões da Califórnia e do Canadá, por exemplo, gatos não podem viver fora de casa. No Brasil, porém, nenhuma política semelhante chama a atenção, mesmo com o crescimento anual de 8% da população de felinos. O país tem um bichano para cada nove pessoas.
Ironicamente, as medidas restritivas são maiores contra o arquirrival dos felinos. Florianópolis chegou a aprovar um programa estipulando que cada cachorro deveria ser cadastrado na prefeitura e paramentado com um chip. Aqueles que não estivessem com o equipamento poderiam ser sacrificados. A lei não pegou.
Bióloga do Instituto Hórus, especializada em conservação ambiental e no estudo de espécies invasoras, Michele Dechoum condena o descaso brasileiro com a matança promovida pelos gatunos.
Para ela, a prioridade seria adotar medidas de controle do acesso a felinos em áreas de conservação ambiental e nas zonas de amortecimento — a faixa de aproximadamente dez quilômetros ao redor desses ecossistemas protegidos.
— Tem gente que não dá comida e acha que o gato se vira, que é independente — lembra. — Quando falamos de manejo de fauna invasora, o principal obstáculo é a oposição da opinião pública. Não vou condenar o animal, mas é importante conscientizar o dono sobre o impacto que o bicho pode provocar.
Como a diversidade de espécies é maior aqui do que nos EUA, estima-se que os felinos brasileiros teriam à sua disposição uma variedade de presas ainda mais relevante.
— É difícil dizer se os gatos brasileiros predam os mesmos animais, e em uma quantidade maior, do que os americanos — lamenta Michele.
O Reino Unido recomenta uma medida simples que reduziria o sucesso das emboscadas felinas — e, assim, o impacto dos bichanos à biodiversidade. De acordo com a Sociedade Real para a Prevenção de Crueldade contra Animais, uma coleira com um sino é suficiente para os gatos matarem 41% menos aves e 34% menos mamíferos do que os felinos sem o artefato.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

VAMOS INVESTIGAR A ORIGEM DO FOGO!!!

Vamos investigar a origem do fogo!,
estão dizendo por aí os demagogos de todos os escalões, para tentar justificar ou explicar a morte de todos aqueles adolescentes dentro daquela imensa caixa de concreto. Aliás, a palavra boate é tradução de boite, que em francês é caixa. No universo das patologias associadas ao sedentarismo essa tal boate é, no mínimo, um dos mais sombrios sintomas dos transtornos sociais. Qual a motivação inconsciente dessa espécie para enclausurar-se de madrugada numa dessas tocas, comandadas quase sempre por bandoleiros e por sete ou oito leões-de chácara inconsequentes? Por quê enfiar-se voluntariamente nesses fornos de concreto e sem janelas, onde tudo é suspeito, para bebericar, entupir os pulmões de fumaça, requebrar o esqueleto e, quase sempre, estourar os tímpanos sob a barulheira de guitarras e de baterias vagabundas...
A origem do fogo? Ora, a origem do fogo todo mundo sabe. Foi o titã Prometeu, irmão de Epimeteu, que o roubou dos deuses e que o presenteou à humanidade, aos pirotécnicos e a outros imbecis!
Vamos investigar a origem do fogo!
Ora! Deixem de ser idiotas! Deviam, é ter investigado semanalmente a situação daquele forno e daquela espelunca! Como deviam investigar semanalmente os banheiros dos restaurantes, o nível de contaminação dos hospitais, os esgotos correndo por debaixo da mesa de 80% da população, as vacas que morrem de tuberculose e que são esquartejadas e vendidas aos pedaços nos açougues, a cachaça, as cervejas, os uísques falsificados e a quantidade de venenos que, por ignorância ou por malícia, o chamado agronegócio injeta nos alimentos... 
E não serão agora as promessas, nem as lágrimas dos burocratas que irão amenizar o peso dessa tragédia... assim como não serão os poeminhas dos líricos de plantão e muito menos a voracidade da mídia sobre as vítimas que irão dar uma explicação ou até mesmo um sentido a essa absurdidade... 


domingo, 27 de janeiro de 2013

Plusvalia! Ou, a putaria da livre concorrência...

O cupom ao lado refere-se a conta do café da manhã deste sábado, numa birosca aqui da cidade. Mesmo que Marx não tivesse escrito as 2247 páginas de seu Kapital, esse assalto estúpido já faria qualquer otário entender o que é, de fato, a tão falada plusvalia e como funciona a rapina social. A ignorância e a alienação social por um lado, e a existência desses gatunos respaldados pelo Estado, por outro, é que têm perpetuado essa engrenagem vil, esse superfaturamento irracional e essa roubalheira sem limites. 

Relaciono os ingredientes do "breakfast":

1 baguete (de um palmo)                                        R$: 2,90
1 pão de chocolate (de 1/3 de palmo)                     R$: 8,70
1 capuccino                                                             R$: 7,80
1 xícara de chocolate quente                                   R$: 6,80
1 geléia de morando (de 2 cm quadrados)              R$: 1,70
                                                                            ___________
                            Total:                                           R$: 25,90
                           10% serviço de mesa                    R$:  2,59
                                                                            ____________
                            Total:                                           R$: 28,49


Com esse dinheiro se poderia comprar ali no mercado da esquina, que também explora e que também fatura mais de 100% sobre todas as mercadorias:

1 lata de chocolate com 200 gramas         (R$: 5,87)
1 lata de capuccino com 200 gramas        (R$: 6,09)
1 quilo de açucar refinado                         (R$: 1,88)
1 quilo de canela em pó (granel)               (R$: 7,50)
5 baguetes  (de um palmo)                        (R$: 5,30)
6 porções de geléia de morango                (R$: 1,75)
                                                                ____________
                                                                    R$: 28,49 

Que tal!? Sempre que me surpreendo por aí, fazendo esse papel de babaca, volto para casa indignado e ávido por reler alguma coisa "consoladora", algum cânone libertário, subversivo, radical... nem que seja o pobre e vencido Bakunin ou o velho Manifesto produzido por Marx e por Engels. Releio as partes sublinhadas lá na adolescência, e mais tarde, já não tão adolescente, e faço um esforço imenso para sentir o mesmo entusiasmo e as mesmas convulsões de outrora. As percepções desses homens foram geniais! Colocaram bem a mostra o mau caráter das relações de trabalho e de produção, apontaram o dedo para os grandes larápios, para o DNA das grandes máfias, para a doença sempre pronta a germinar na "alma" humana... Mas reconheço que caducaram e que já são cartas fora do baralho! Os bancos, as grandes corporações, as fábricas de medicamentos, a mídia, os cínicos donos do mundo, instrumentalizados pelos intelectuais e pelos governos de todas as laias e facções, foram os grandes vencedores.., instalaram a máquina que aí está e que funciona com a máxima perfeição, pelo menos na pacificação e na saciação aparente do rebanho...      

sábado, 26 de janeiro de 2013

As mulheres da Índia e as facas...

As facas sempre estiveram presentes na longa e ziguezagueante marcha do homo sapiens. Em minha casa de infância havia, além de uma espada, uma faca especial em forma de punhal, com bainha de couro e uma lâmina de causar arrepios... E naquela época todos os homens tinham a sua, prateada, personalizada... nem que fosse apenas para limpar-se as unhas ou para ressaltar as supostas qualidades fálicas. De vez em quando matavam um aqui e um ali a facadas. Arma branca, diziam. Nunca entendi por que a faca era e é chamada arma branca, mesmo quando é inox, preta, cinza... Os paraguaios que viviam por lá tinham fama de serem experts na briga de faca... Assisti dois deles num duelo às margens do Lago de Ypacarai. Um morreu caído com a cara nas margens, o outro, agarrou-se a um arbusto e ali ficou para sempre... Ouvíamos de nossos preceptores: ou você os abate ainda quando estão a uns dois metros de distância ou... já era! Nos mercados de praticamente todo o mundo, prestem atenção, sempre há um setor especializado em facas. Na Índia, onde um partido de Bombaim acaba de distribuir milhares delas às mulheres, para que se defendam dos estupradores, os modelos são os mais variados e exóticos. Comprei uma quando circulei por lá e que fica sempre aqui sobre a mesa onde escrevo. Cabo e bainha de madeira, uns rebites de alumínio e uns floreados em vermelho. A lâmina é de ferro vagabundo, como se tivesse sido aproveitado de algum outro material. Um senhor as vendia na rua. Levava umas cinquenta penduradas no corpo. Para demonstrar a qualidade do material, escolhia uma de seu acervo e a lançava com maestria numa parede ou numa árvore. A faca saia como um raio de sua mão direita e em instantes estava cravada lá no alvo... Poderia facilmente acertar o coração de alguém a uns cinco metros de distância. Dizia. Esse mesmo senhor vendia também umas minúsculas balanças da época áurea do ópio... pequenas preciosidades que vinham dentro de uma caixinha de madeira, os pratos de cobre sustentados por barbantes e cujos pesos eram no formato de elefantes que iam do tamanho de um grão de feijão ao de uma amêndoa...
Mas acabei desviando do assunto principal: as facas distribuídas às mulheres indianas, para se defenderem dos estupradores! Se hoje se estupra desse jeito por lá, imaginem como devia ser na época em que o poeta Valmiki produziu seu Ramáiana, texto imenso onde relata, entre outras bizarrices, a história do príncipe, Rama de Ayodhya, cuja esposa Sita é abduzida pelo demônio...
Uma faca para defender-se do pênis! As pacientes de Freud 'falavam' em tesouras e na inveja desse órgão feito para mijar e para fecundar, mas que também estupra! Quê demônios devem habitar a mente de um estuprador? Com que lógica decide invadir o corpo de alguém e mais, ejacular dentro dele? O que farão as mulheres com essas facas? Serão capazes de cortar a cabeça do "amante" como quem corta a de um porco? Como determinarão os limites entre uma legitima proposta amorosa e a trapaça do estupro? Como elaborar essa desconfiança mútua? Onde ficaram os inventores do suposto amor?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A LITURGIA AO REDOR DO CRACK...

O mendigo K., atravessava a cidade a pé quando nos encontramos. Estava com cara de insônia. Chuviscava. Um chapéu de pano preto escondia-lhe parcialmente a testa. A mídia inglesa denunciava o Vaticano de ter faturado bilhões em negociatas escusas com Mussolini... enquanto da garagem de cada prédio saiam filas de carros com funcionários públicos ainda sonolentos. Fez uma ironia qualquer com aqueles escravos do estado e do relógio e desenrolou uma página de jornal que levava em baixo da camisa para mostrar-me a foto de um sujeito em transe acendendo seu improvisado cachimbo de crack...
- Veja a expressão de delirio e de felicidade desse cara!  - Disse, olhando demoradamente para aquele sujeito entrincheirado num beco, os braços e as mãos... puros ossos, uma ferida imensa nos lábios... E prosseguiu:
Quê porra de mecanismo é esse que a simples fumaça de uma pedra pode causar? O quê acontece verdadeiramente nas carnes do pulmão e nos ligamentos cerebrais quando recebem a fumaça? Quê porra de química é essa? Quando é que saberemos a verdade a respeito do mundo que trazemos por detrás de nossos ossos? 
E agora, querem curá-los! Logo agora que transcenderam a família, o trabalho, a mesa com oito talheres, as camisas engomadas, o papel higiênico com cheiro de sândalo... O medo de morrer! Logo agora que conseguiram trocar o travesseiro por um tijolo... Curá-los de quê? Dessa "felicidade"? Oferecer-lhes o quê depois de curados? Como convencer-lhes que o tédio e que a melancolia doméstica são mais saudáveis que o frenesi do abismo? Ou que a longevidade é mais honrada que a morte precoce? 
Veja como dizem NÃO a toda liturgia burocrática e a tudo o que o establishment lhes oferece:

O doutor: em dois meses você estará completamente desintoxicado e curado!
O governador: Apenas queremos ajudá-lo a resgatar seu papel de cidadão!
O político: Te esperamos lá no comitê, para filiar-se ao partido!
A freira: Deus e seu bondoso filho, estão prontos para recebê-lo de volta!
O macrobiótico: Experimente a dieta dos seis dias de arroz integral!
Um bestalhão beato que passa pela rua: Volte para sua mãe, para seu pai, para seus irmãos!
O comerciante: Curado, podes contar com uma cesta básica mensal!
O anti-psiquiatra: Agora já podes fazer o caminho inverso, do Self para o Ego!
O pastor: E afastaremos a satanás de teu corpo! 
A mãe: Quero que você retorne para casa e para a família!
O presidente de Cingapura: Nesses casos, só a pena de morte!
A assistente social: A partir de agora você será outro!
O sindicalista: Vamos orientá-lo a recolher o ISS!
O jornalista: O que você está sentindo neste momento? É grande sua tristeza? Quando poderemos fazer uma matéria?
O advogado: Por trinta pedras, entro com um habeas corpus! Aliás, com um habeas ossus!
A polícia: Se não sair dessa, te apagaremos na próxima chacina!
O psicólogo: Fale-me um pouco de seu desejo e de sua infância!!!
O cara da funerária: Aqui estão nossos telefones...

Desintoxicado de quê? Cidadão de quê? Partido porra nenhuma! Quê Deus? Quê mãe, que pai, que irmãos? Quê cesta? Quê Satanás? Quê casa, quê família!? Não quero ser Outro! ISS um caralho! Não faltarão chacinas! Desejo? Infância? Quê infância!???  

Fez um longo silêncio, tirou o chapéu, colocou a mão sobre meu ombro e desembuchou:

Aqui entre nós, sem demagogia e sem falsos republicanismos, toda essa gente já era órfã de tudo e já estava "perdida" bem antes de aparecer o crack. Enquanto você e os de sua trupe bebiam capuchinos com pão de ló por aí, às cinco da tarde, cada um daqueles miseráveis já estava apodrecendo em suas tocas ou em seus cortiços. Como votavam e como serviam para falsificar estatisticas, fazia-se de conta que eram "soberanos", donos de si, que  podiam injetar-se nas veias até merda pasteurizada, se quisessem...  Mas, quando, já na fase terminal, vieram exibir nas ruas sua podridão e suas misérias.., então todo mundo começou a ficar comovido, irritado, indignado, envergonhado... Um surto de humanidade brotou repentinamente de nossos corruptos e descompensados corações e lhes oferecemos de graça essa purificação compulsória, essa espécie de passagem de volta para nosso meio, para esta outra parte, a "parte boa" do manicômio social, da qual já estavam excluídos bem antes ainda de nascerem...
(A ilustração é do chargista espanhol El Roto) 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O CIRCO EM WASHINGTON E O REALISMO NO JAPÃO......

Enquanto revia a bobageira teatral na posse do Obama, aquele circo romântico e pagão imitando as festas imperiais romanas, aquela frescura com beijinhos e com acenos, com as repetidas promessas de tolerância aos pobres, aos velhos, aos gays e aos bárbaros latino-americanos, sem falar daquela homenagem pra lá de hipócrita ao pastor Luther King planejada com o único fim de excitar tanto os negros locais como os das colônias... entrava de súbito em minha tela a declaração do Ministro japonês das Finanças Taro Aso que, referindo-se aos altos custos da Seguridade Social no Japão, sugeria como única solução a possibilidade dos idosos se apressarem em morrer. E arrematou: que ele próprio recusaria qualquer tipo de tratamento médico para prolongar sua vida, caso fosse vítima de uma doença terminal, pois seria horrível ser forçado a viver se quisesse morrer... 
Como naquele país as mulheres vivem quase noventa e os homens (mesmo os conservados em saquê) uns oitenta anos, não devem ser poucos os que seriam empurrados para a tumba pela sugestão do senhor Taro. Mas quem já transitou pelos costumes milenares daquele povo sabe que a proposta do ministro não é nova. Num ensaio de Simone de Beauvoir há o relato de que cabia ao filho mais velho, num determinado dia, convidar o velho pai para um passeio, durante o qual, o primogenito o lançava num abismo.
Por mais chocante que esse assunto possa ser ou parecer, e por menos que seja explicitamente colocado em pauta, está sempre presente nas reflexões intimas de cada mortal, seja já velho ou esteja ainda na antessala da senectude.
Realmente não deve ser fácil o lugar ocupado pelo ancião, principalmente quando, como diz meu amigo Plinio, ainda é incentivado a orgulhar-se de estar caquético e imprestável aos 105 anos... Se por um lado permanecer vivo é enfrentar uma desgraça atrás da outra e sem chances de uma vitória satisfatória, por outro, seguir os conselhos do ministro japonês, é abrir mão - como dizia Arlt - da única maravilha possível...  
Chega a ser até quase grotesco que, depois de tanto tempo e de tanto blablablá, a questão fundamental da existência continue impossível de ser respondida: manter-se no mundo como um fantoche ou um zumbi, assistindo as mesmíssimas idiotices de uma juventude besta e perdulária, ou apressar a marcha para um forno crematório?   
Invente-se a mentira e o despiste que se quiser.., o resto é apenas literatura, pasto para as cabras e para os abutres...

Ainda em 1979, quando vagabundeava pela Universidade do México, pelas praias do Pacífico e pelas montanhas de Oaxaca, mencionei em meus escritos panfletários e num castelhano quase incompreensível, este pequeno diálogo retirado de um livro de Strindberg: 

O CAÇADOR - De que maneira posso ajudar-te?
O JAPONÊS -    Da seguinte maneira: tomarei uma cápsula para dormir e ficarei como morto. Tu então, me colocarás num caixão que será levado ao crematório.
O CAÇADOR - Mas, e se acordares?
O JAPONÊS - É exatamente isso que quero. Por um momento sentirei o poder purificador do fogo. Sofrerei por um breve momento e então, sentirei a felicidade imensa da libertação...   

Charge de Pawla Kuczynskiego...


sábado, 19 de janeiro de 2013

Sabe com quem está falando!?

Um país regido e comandado basicamente por bacharéis em direito, por advogados e por juízes, bem que poderia decretar estado de sitio depois do último resultado do exame da OAB, quando 83% dos candidatos foram reprovados na parte mais elementar da prova, a parte objetiva. Na segunda parte, então, que exige do candidato alguns malabarismos subjetivos, é bem provável que pelo menos a metade dos 17% sobrantes também desapareçam na poeira... 
Não é novidade para ninguém que a grande maioria das faculdades de direito, (para não falar de todas as demais áreas) sejam públicas, privadas ou mistas, laicas ou religiosas, são umas porcarias que só funcionam mesmo como vendedoras de ilusões e como caça níqueis... E o estado sabe, a OAB sabe, os professores sabem, os alunos sabem... os futuros clientes sabem... mas nada altera a farsa e a comédia cotidiana que se é obrigado a representar enquanto se está vivo. A  indagação básica que se deveria fazer, mas que não se faz, é de como pode um ignorante orientar outro ignorante sem que um e outro acabem fortalecendo ainda mais o descalabro social e ambos, despencando no mesmo abismo? 
E não podemos esquecer que a novela do Mensalão nos deu de graça e em capítulos os elementos comprobatórios dessa deficiência. Num lado os argumentos dos juízes (todos formados em direito), no outro lado os argumentos dos advogados (quando começaram a exercer a profissão ainda não havia o exame da OAB) e no outro lado os argumentos dos réus (praticamente todos bacharéis, se não em direito, pelo menos em alguma outra variante). 
O mais cômico é que para existir você precisa contratar advogados desde o berço até a cova. Sempre haverá um na retaguarda de teu Certidão de Nascimento e outro nas tinieblas de teu Atestado de Óbito... Preste atenção: um advogado, um padre ou um militar! As três profissões top para as famílias dos lusitanos de 1600. Ou continuaria assim até hoje?  
E os advogados não são poucos! Relativamente o Brasil é o país que tem mais desses doutores no mundo... Só perde para os EEUU e para a Índia. Para os EEUU, bem entendido, que tem uma população de uns quatrocentos milhões e para a Índia que, entre os brâmanes e os intouchables já passa de um bilhão. Que tal?  
-Mas onde estão? Me perguntava na porta de uma defensoria pública a mãe de um adolescente que, por carregar umas míseras gramas de maconha, foi encarcerado e que está há mais de um ano lá, num vilarejo goiano, sem julgamento e sem sequer uma denuncia formal? O delegado - sempre bacharel em direito -, com certeza (data venia), tem coisas muito mais importantes para preocupar-se...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Os tons escuros de Macaé...

Você já ouviu falar de Macaé? Conhecida também por Princesinha do mar, é um município do RJ, antiga terra dos tamoios e dos goitacás, atualmente com uns cento e vinte mil habitantes, dos quais, 60% ainda desprovidos de saneamento básico. Foi ali, que nesta semana, um juiz da Vara da família/juventude e do idoso, num surto medievo, ordenou a captura e o recolhimento dos livros de E. L. James, aquela trilogia de fantasias sexuais para donas de casa (que está vendendo como aspirina) por considerá-los de conteúdo inapropriado para crianças e adolescentes... 
Por conhecer as motivações e o perfil tanto dos juízes como dos editores, não duvido que essa censura tenha sido apenas um truque de mercado para incrementar ainda mais as vendas desse abacaxi literário... Depois que soubemos que para se ter um determinado livro exposto em lugar privilegiado nas livrarias é necessário pagar até cinco mil mensais ao livreiro, o que não se pode esperar do sofisticado lupanar literário!? O argumento do juiz de que existe o risco do livro ser manuseado e lido por crianças nas livrarias é quase absurdo. Primeiro, porque é sabido que não só as crianças, mas também seus respectivos pais, avós e ancestrais ao invés de irem às livrarias preferem ficar em casa se contorcendo diante das trupes midiáticas, e segundo, porque para uma criança de hoje em dia, o erotismo de 50 tons de cinza, se comparado ao que ela tem disponível, 24 horas por dia na internet, só lhe rememoraria a virilidade do Pato Donald e a sensualidade da Margarida... 
Quanto à censura, queima de livros, interdições de pensamentos e etc., na história., lembramos de imediato do famoso Livro de Toth; da destruição da Biblioteca de Alexandria; do livro As estâncias de Dzyan; Os oito volumes de Steganographie; A Mônada Hieroglífica; o manuscrito de Voynich; o livro Excalibur (que levava à loucura) etc. As aventuras da Inquisição nem precisa mencionar. Hitler, tampouco. Dizem que o bigodudo Stalin massacrou os geneticistas da época e que Mussolini, em 1944, queimou 80 mil livros da Sociedade Real do Saber de Nápoles... Mais tarde, vimos essa estultícia repetir-se também por aqui na América Latina, no período em que os militares resolveram salvar a pátria...


Pombal improvisado...


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os pimentões assassinos... Ou: alguém habilitado a rebater o artigo do Stédile???

"A sociedade brasileira enfrenta no meio rural problemas de natureza distintos que precisam de soluções diferenciadas. Temos problemas graves e emergenciais que precisam de medidas urgentes. Há cerca de 150 mil famílias de trabalhadores sem-terra vivendo debaixo de lonas pretas, acampadas, lutando pelo direito que está na Constituição de ter terra para trabalhar. Para esse problema, o governo precisa fazer um verdadeiro mutirão entre os diversos organismos e assentar as famílias nas terras que existem, em abundância, em todo o País. Lembre-se de que o Brasil utiliza para a agricultura apenas 10% de sua área total.
Há no Nordeste mais de 200 mil hectares sendo preparados em projetos de irrigação, com milhões de recursos públicos, que o governo oferece apenas aos empresários do Sul para produzirem para exportação.
Ora, a presidenta comprometeu-se durante o Fórum Social Mundial (FSM) de Porto Alegre, em 25 de janeiro de 2012, que daria prioridade ao assentamento dos sem-terra nesses projetos. Só aí seria possível colocar mais de 100 mil famílias em 2 hectares irrigados por família.
Temos mais de 4 milhões de famílias pobres do campo que estão recebendo o Bolsa Família para não passar fome. Isso é necessário, mas é paliativo e deveria ser temporário.
A única forma de tirá-las da pobreza é viabilizar trabalho na agricultura e adjacências, que um amplo programa de reforma agrária poderia resolver. Pois nem as cidades, nem o agronegócio darão emprego a essas pessoas.
Temos milhões de trabalhadores rurais, assalariados, expostos a todo tipo de exploração, desde trabalho semiescravo até exposição inadequada aos venenos que o patrão manda passar, que exige intervenção do governo para criar condições adequadas de trabalho, renda e vida. Garantindo inclusive a liberdade de organização sindical.
Há na sociedade brasileira uma estrutura de propriedade da terra, de produção e de renda no meio rural hegemonizada do modelo do agronegócio que está criando problemas estruturais gravíssimos para o futuro.
Vejamos: 85% de todas as melhores terras do Brasil são utilizadas apenas para soja/milho; pasto, e cana-de-açúcar.
Apenas 10% dos fazendeiros que possuem áreas acima de 200 hectares controlam 85% de todo o valor da produção agropecuária, destinando-a, sem nenhum valor agregado, para a exportação. O agronegócio reprimarizou a economia brasileira.
Somos produtores de matérias-primas, vendidas e apropriadas por apenas 50 empresas transnacionais que controlam os preços, a taxa de lucro e o mercado mundial.
Se os fazendeiros tivessem consciência de classe, se dariam conta de que também são marionetes das empresas transnacionais,
A matriz produtiva imposta pelo modelo do agronegócio é socialmente injusta, pois ela desemprega cada vez mais pessoas a cada ano, substituindo-as pelas máquinas e venenos. Ela é economicamente inviável, pois depende da importação, anotem, todos os anos, de 23 milhões de toneladas de fertilizantes químicos que vêm da China, Uzbequistão, Ucrânia etc. Está totalmente dependente do capital financeiro que precisa todo ano repassar: 120 bilhões de reais para que possa plantar. E subordinada aos grupos estrangeiros que controlam as sementes, os insumos agrícolas, os preços, o mercado e ficam com a maior parte do lucro da produção agrícola.
Essa dependência gera distorções de todo tipo: em 2012 faltou milho no Nordeste e aos avicultores, mas a Cargill, que controla o mercado, exportou 2 milhões de toneladas de milho brasileiro para os Estados Unidos. E o governo deve ter lido nos jornais, como eu…
Por outro lado, importamos feijão-preto da China, para manter nossos hábitos alimentares.
Esse modelo é insustentável para o meio ambiente, pois pratica a monocultura e destrói toda a biodiversidade existente na natureza, usando agrotóxicos de forma exagerada. E isso desequilibra o ecossistema, envenena o solo, as águas, a chuva e os alimentos.
O resultado é que o Brasil responde por apenas 5% da produção agrícola mundial, mas consome 20% de todos os venenos do mundo. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) revelou que a cada ano surgem 400 mil novos casos de câncer, a maior parte originária de alimentos contaminados pelos agrotóxicos. E 40% deles irão a óbito.
Esse é o pedágio que o agronegócio das multinacionais está cobrando de todos os brasileiros! E atenção: o câncer pode atingir a qualquer pessoa, independentemente de seu cargo e conta bancária.
Uma política de reforma agrária não é apenas a simples distribuição de terras para os pobres. Isso pode ser feito de forma emergencial para resolver problemas sociais localizados. Embora nem por isso o governo se interesse.
No atual estágio do capitalismo, reforma agrária é a construção de um novo modelo de produção na agricultura brasileira. Que comece pela necessária democratização da propriedade da terra e que reorganize a produção agrícola em outros parâmetros.
Em agosto de 2012, reunimos os 33 movimentos sociais que atuam no campo, desde a Contag até o movimento dos pescadores, quilombolas, MST etc., e construímos uma plataforma unitária de propostas de mudanças.
É preciso que a agricultura seja reorganizada para produzir, em primeiro lugar, alimentos sadios para o mercado interno e para toda a população brasileira. E isso é necessário e possível, criando políticas públicas que garantam o estímulo a uma agricultura diversificada em cada bioma, produzindo com técnicas de agroecologia. E o governo precisa garantir a compra dessa produção por meio da Conab.
A Conab precisa ser transformada na grande empresa pública de abastecimento, que garante o mercado aos pequenos agricultores e entregue no mercado interno a preços controlados. Hoje já temos programas embrionários como o PAA (programa de compra antecipada) e a obrigatoriedade de 30% da merenda escolar ser comprada de agricultores locais. Mas isso atinge apenas 300 mil agricultores e está longe dos 4 milhões existentes.
O governo precisa colocar muito mais recursos em pesquisa agropecuária para alimentos e não apenas servir às multinacionais, como a Embrapa está fazendo, em que apenas 10% dos recursos de pesquisa são para alimentos da agricultura familiar. Criar um grande programa de investimento em tecnologias alternativas, de mecanização agrícola para pequenas unidades e de pequenas agroindústrias no Ministério de Ciência e Tecnologia. Criar um grande programa de implantação de pequenas e médias agroindústrias na forma de cooperativas, para que os pequenos agricultores, em todas as comunidades e municípios do Brasil, possam ter suas agroindústrias, agregando valor e criando mercado aos produtos locais.
O BNDES, em vez de seguir financiando as grandes empresas com projetos bilionários e concentradores de renda, deveria criar um grande programa de pequenas e médias agroindústrias para todos os municípios brasileiros.
Já apresentamos também ao governo propostas concretas para um programa efetivo de fomento à agroecologia e um programa nacional de reflorestamento das áreas degradadas, montanhas e beira de rios nas pequenas unidades de produção, sob controle das mulheres camponesas.
Seria um programa barato e ajudaria a resolver os problemas das famílias e da sociedade brasileira para o reequilíbrio do meio ambiente.
Infelizmente, não há motivação no governo para tratar seriamente esses temas.
Por um lado, estão cegos pelo sucesso burro das exportações do agronegócio, que não tem nada a ver com projeto de país, e, por outro lado, há um contingente de técnicos bajuladores que cercam os ministros, sem experiência da vida real, que apenas analisam sob o viés eleitoral ou se é caro ou barato…
Ultimamente, inventaram até que seria muito caro assentar famílias, que é necessário primeiro resolver os problemas dos que já têm terra, e os sem-terra que esperem. Esperar o quê? O Bolsa Família, o trabalho doméstico, migrar para São Paulo?
Presidenta Dilma, espero que a senhora leia este artigo, porque dificilmente algum puxa-saco que a cerca o colocaria no clipping do dia".
(Publicado na Revista Carta Capital)

Prevaricadores, pastores e diplomatas...

Vários de meus correspondentes estão escandalizados com a nota no Diário Oficial da União de anteontem informando que o Ministério de Relações Exteriores concedeu passaportes diplomáticos a dois líderes da Igreja Mundial do Poder de Deus. Logicamente, não diz para quê. Passaportes diplomáticos!? Inicialmente, também achei uma canalhice eleitoreira e um emporcalhamento da república, mas depois, refletindo bem, vi que não há mal nenhum nisso, afinal, podem muito bem estar viajando por aí em missão divina, indo a alguma catequese, fazendo alguma peregrinação, o salvamento de alguma ovelha perdida nos bordéis de Moscou, nos puteiros da Espanha ou nos rituais animistas do Haiti... Não é verdade?  
Convenhamos: são quase infinitas as atividades que esses "missionários" podem estar fazendo ao redor do mundo, tanto em nome de Deus como em nome da República!.. Indo para a África alimentar criancinhas e levar algumas palavras de fé e de amor àqueles pagãos sem alma... - por exemplo. Implantando uma filial da referida seita em Madagascar... Alfabetizando alguém na Somália? Treinando os ingleses a lidar com enchentes... Divulgando a importância da educação infantil desde o pré-escolar até a universidade ou a como administrar hospitais públicos?.. Também podem estar dando uma passadinha pela Suécia para dar algumas aulas sobre sistema penitenciário... Ou mesmo passando pelo Japão para ensinar àquela pobre gente a como fazer estradas e saneamento básico... Ah, são tantas as funções de interesse do Estado que esses filantropos podem cumprir no exterior que parece pura mesquinharia e puro preconceito a indignação das massas com a simples concessão de seus passaportes diplomáticos...  Um passaporte é apenas um passaporte! O que difere um passaporte comum de um diplomático é apenas a cor da capa... chegou a justificar um energumeno do Itamaraty...
E além disso, lembrei aos queixosos, depois do acordo assinado entre o nosso Estado e a Santa Sé, em 2008, essa história de passaporte diplomático para "evangelizador" passa a ser uma ninharia e uma besteira... Alguém tem notícia, ouviu falar ou conhece o tal acordo firmado entre o Presidente da época e o Papa Bento XVI? Vejam no link abaixo...


Agora... se tudo já está dominado pelas igrejas, pelas seitas e pelos fanáticos, azar nosso! No momento certo teremos a inquisição que bem merecemos. E ela virá, a principio, em conta-gotas, depois em forma de enxurrada... Por hora, nos resta apenas expressar nosso nojo com tantas palavras dirigidas e vindas do além, com tantos mapas astrais e com tantas previsões beatificantes... Expressar nossa náusea diante desse universo bestificado e de suas probabilidades falsificadas... 
Sorte que estamos com o "corpo fechado" e que, como o velho Churchill, só acreditamos, realmente, naquelas estatísticas que nós mesmos falsificamos...


 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Dominguinhos...

Ai de ti Copacabana (Rubem Braga, 1958)

1. Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas. 2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite. 3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia. 4. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas. 5. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão. 6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão. 7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska. 8. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum. 9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau marfim nas câmaras refrigeradas e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão. 10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação. 11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência. 12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei. 13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia. 14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações. 15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados? 16. Antes de te perder eu agravarei a tua demência - ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão. 17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará. 18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas. 19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão. 20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis - tudo passará. 21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares. 22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana! 
Rubem Braga, Rio de Janeiro, 1958

domingo, 13 de janeiro de 2013

A próxima guerra civil será por sexo...

Pelo andar da carruagem a próxima guerra civil planetária não será, como se diz, por água, nem por petróleo, nem por terras, nem por tecnologia, nem por religião e nem por ideologia... será por sexo. Quando é que os deuses iriam imaginar que uma simples rodela idealizada para fazer cocô fosse gerar tanto histerismo, tantas paixões e tanta polemica!!! 
Hoje, no Vaticano, no exato momento em que o papa rezava o Ângelus, duas militantes do grupo FEMEN tiraram a roupa, exibiram as tetas para o pontificado e mandaram o herdeiro de Pedro  calar a boca... Levavam nas costas a inscrição: In gay we trust, uma alusão ao In god we trust, escrito na moeda americana. A fúria dos beatos e da polícia do vaticano contra elas foi imediata. Por coincidência e quase ao mesmo tempo, setecentas ou oitocentas mil pessoas marchavam com bandeiras, cruzes, crucifixos e cartazes em Paris, contra o tal matrimônio gay e a adoção de crianças por  casais homossexuais... É evidente que na semana que vem setecentos ou oitocentos mil do lado oposto também tomarão as ruas com suas razões, seus cartazes, suas bandeiras e com suas cruzes... numa luta sem fim... E as pobres crianças... nascidas quase sempre por acaso, terão que passar a vida inteira desenganadas no meio dessas diatribes miseráveis tentando inutilmente saber quem é ovelha e quem é cabrito...
Apesar da família tradicional ter se revelado um fracasso completo pelos séculos a fora (olhe ao seu redor) o mundo não se atreve a decretar seu exaurimento, nem jogá-la no lixo e muito menos admitir que um casal de bigodudos ou de mocinhas venha macular e substituir a junção do antigo patriarca e da velha parideira de outrora... Compreender a indignação tradicional dos manifestantes é fácil, o difícil é compreender o infantilismo dos homossexuais em querer repetir uma experiência caduca e falida dessas que, com certeza, entre eles, será mais desastrosa ainda... Se tivessem uma visão de porvir entenderiam que não demorará muito para que todas as formas de casamento sejam diagnosticadas como desatino e radicalmente banidas da civilização... (seja entre gays, entre héteros, entre assexuados, entre hermafroditas, entre zoófilos, com suas vacas..., etc.) e que os filhos passarão a ser gerados e criados apenas em comunidades (longe das mães) por meios bem diferentes e muito mais sandáveis que os da atualidade... Isto, claro, "sans renoncer à l'animalité qui est la grandeur de l'homme"

Jim Morrison: o cara que queria matar o pai e foder a mãe...

Jim Morrison: o cara que queria matar o pai e foder a mãe...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

AS MISÉRIAS DO PROCESSO PENAL...

Deixando de lado as analogias religiosas e teístas que o autor (como italiano legítimo!) faz aqui e ali, este livretinho de 91 páginas (Le miserie del processo penale) escrito e publicado em 1957 por Francesco Carnelutti, é uma preciosidade na análise daquilo que se refere a precariedade do processo penal, da lei, da justiça, da verdade, da condição humana e das incongruências do judiciário e da imensa prisão onde todos, indiscriminadamente, nos debatemos... Deveria ser obrigatoriamente lido não apenas pela polícia, pelos promotores, pelos guardas de cadeia, pelos torturadores, pelos militares, pelos alcaguetes, pelos fabricantes de presídios, pelos juízes, pelos carcereiros, pelos alunos de direito e pelas máfias que subjugam o imenso pelotão de desvalidos..., mas pelos próprios delinquentes e bandidos, pelos milhares de miseráveis presos injustamente, esquecidos em pocilgas imundas e condenados à morte ou a prisão perpétua... Também pela multidão de mendigos que dormia neste final de semana ao redor da rodoviária de BH e pelos indigentes que fuçam diariamente os lixões no fundo de nossas casas...  Pelos tarados, pelos loucos, pelos ladrões, pelos familiares dos adolescentes que são ou serão semanalmente assassinados, pelos milhares de fumadores de crack que se multiplicam por aí, rumo ao cemitério, por aqueles que estão em vias de serem condenados e por aqueles que brevemente deixarão suas celas, aos pedaços... Enfim, por todos que assistimos e vivemos a capenguice do último rosário de séculos e o desvario desse tal processo civilizatório, recheado cada dia mais de equívocos, de cambalachos, limitações, mentiras, misérias, injustiças, explorações, sofrimentos, desonras e fracassos...

Escreve il signore Carnelutti:

"... o processo penal não é, infelizmente, mais que uma escola de incivilização". (p .7)

"... os antigos reconheceram um caráter sagrado ao acusado, porque, diziam, era destinado à vingança dos deuses; assim eles intuíam uma verdade profunda." (p.16)

"... Existem aqueles que concebem o pobre com a figura do faminto, outros do vagabundo, outros do enfermo; para mim, o mais pobre de todos os pobres é o encarcerado." (p. 19)

"A jaula ou as algemas são símbolos do direito, e por isso revelam a natureza e a desventura do homem. O homem acorrentado, ou o homem na jaula é a verdade do homem; o direito não faz mais que revelá-la. Cada um de nós está fechado numa jaula que não vê..." (p. 23)

"... Nenhum homem, se pensasse no que ocorre para julgar um outro homem, aceitaria ser juiz..."  (p. 34)

"O delito é um pedaço de estrada, cujos rastros quem a percorreu procura destruir... (p. 46)

"... A fera, a indomável e insaciável fera, é a multidão. O artigo da Constituição, que se ilude de garantir a incolumidade do acusado, é praticamente inconciliável com aquele outro que sanciona a liberdade de imprensa... (p. 48)

"... Logo que surge o suspeito, o acusado, a sua família, a sua casa, o seu trabalho são inquiridos, investigados, despidos na presença de todos. O individuo, assim, é feito em pedaços. E o individuo, assim, relembremo-nos, é o único valor da civilização que deveria ser protegido..." (p.p. 48, 49)

"... O acusado deveria ser considerado com o mesmo respeito que se dá ao doente nas mãos do médico ou do cirurgião..." (p. 56, 57)

"... Cada sentença de absolvição é a descoberta de um erro... (p. 68)

"... O Estado é um gigantesco robô, do qual a ciência pode fabricar o cérebro mas não o coração (...) Até um certo ponto o problema do delito e da pena deixa de ser um problema judiciário para ser somente um problema moral. Cada um de nós está comprometido, pessoalmente, na redenção do culpado... (p.p. 75,76)

"... Nosso comportamento frente aos condenados é a indicação mais segura de nossa civilidade..." (p. 76)

"... No cárcere perpétuo a porta da cadeia não se abre a não ser para deixar passar o cadáver. Isto quer dizer que para ele o processo não tem fim. E porque a penitenciária é ou deveria ser um sanatório para recuperar as almas doentes, a condenação ao cárcere perpétuo é a declaração de que a alma de um homem está perdida para sempre..." (p. 78)

"...  Ah! as ilusões do cárcere, quando se contavam ansiosamente os dias faltantes para a libertação... (...)  O Processo, sim, com a saída do cárcere está terminado; mas a pena não: quero dizer o sofrimento e o castigo... (p.p. 81,79)