"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Uma boa entrevista! Ou, a "cerimônia do adeus"...

Aos 86 anos, Carlos Heitor Cony faz uma revisão amarga e irônica da vida
Arnaldo Bloch
O GLOBO - 02 de setembro de 2012

Os passeios na Lagoa acabaram: um câncer linfático crônico, considerado terminal há 11 anos, e que afetou a força de suas pernas, o obriga a passeios modestos, dentro de casa, com fisioterapeutas. Mas quando vai à rua, na condição de cadeirante, Carlos Heitor Cony, 86 anos, não vê limites: viaja para palestras, vai a Nova York e visita o Marco Zero. E não descarta futuras viagens de navio. Fumante de quatro charutos por dia, lê, escreve suas crônicas para a "Folha de S. Paulo" e participa de debates matinais com Artur Xexéo na CBN. Há um ano, não vai à Academia Brasileira de Letras (ABL) e não pretende voltar à ficção, como tantos fãs esperam. O que não o impede de dissertar, horas seguidas, sobre o relançamento de "Memorial do exílio" (Bloch Editores, 1982), com novo título, "JK e a ditadura", agora pela Editora Objetiva. Nesta entrevista, o ceticismo de sempre dá espaço a sorrisos entre o diabólico e o abençoado que o tornam uma das figuras mais carismáticas da literatura brasileira.

O GLOBO - Por ser uma espécie de autobiografia em terceira pessoa, "JK e a ditadura" é carente de um viés crítico. Ele existe?
Deveria ser o terceiro volume de sua autobiografia, mas ele morreu. Sim, tenho minhas restrições a Juscelino, em que pese o carinho e a admiração por sua obra. Ele se vendeu como democrata irredutível, mas pressionava o Congresso. Por exemplo, quando pediu licença para processar Carlos Lacerda por vazar informações do Itamaraty, jogou pesado para cima da Câmara na intenção de cassar o adversário. Não conseguiu. Mas comprou voto, constrangeu a imprensa, o diabo a quatro, como todo mundo faz, na base do fisiologismo. Politicamente, errou feio ao apoiar Humberto Castelo Branco em troca da promessa de respeitar o pleito de 1965, o que não aconteceu. A jogada de mestre teria sido renunciar à candidatura em favor do (general Eurico Gaspar) Dutra, um pessedista de 90 anos que estava na lista dos preferidos dos militares e lhe era leal. Dutra ia corrigir os rumos e acalmar os radicais. Uma vez ele me perguntou onde foi que pegou a curva errada, e eu disse isso.

Mas isso seria suficiente para neutralizar a hidra da ditadura?
Seria a chance de evitar um quadro tão violento. Além disso, uma falta menos grave: JK mentia sobre a idade. Dizia, no primeiro volume das memórias, que nasceu em Diamantina em 1902. Tenho a certidão de nascimento: o ano correto é 1900. O então repórter Roberto Muggiati chegou a ser demitido por ter publicado na "Manchete" a idade certa: JK reclamou com o patrão. Interferi a seu favor e ele acabou "exilado" atrás de uma coluna da redação. Dois anos depois, virou diretor da revista.

E o aspecto programático?
A questão de JK sempre foi mesmo a indústria. Getúlio Vargas fez legislação trabalhista sem um tiro e a sociedade, inclusive o empresariado, aceitou. Mas Getúlio não menciona a questão da terra. Se mexesse na terra, seria deposto. JK também foi avesso a essa questão. Mas, com o que fez, transformou a sociedade brasileira e a levou a outro patamar.

A segunda parte do livro, espécie de apêndice, reedita trechos de "O Anjo da Morte", reforçando a tese de assassinato de Juscelino. Você realmente acredita nisso?
Os indícios são todos nesse sentido. Guilherme Romano, braço direito de Golbery (do Couto e Silva), foi o primeiro a aparecer no local. O pouso onde ele parou pertencia a militares e JK vivia sendo seguido. A notícia da morte por acidente correu dias antes. E, em telegrama ao general (João Batista) Figueiredo, o chefe da Dina, o SNI chileno, equipara Letelier, assassinado pela CIA, a JK, como "um problema para o Brasil", num tempo em que o presidente Jimmy Carter ouviu de (Ernesto) Geisel que, antes da redemocratização, ainda estava em vias uma "limpeza de terreno". Sei que indícios não são provas, embora tenha ouvido o (ex-ministro do STF Cezar) Peluso dizer que existe a "prova indicial". Miro Teixeira chegou a criar uma comissão para apurar as circunstâncias. Todos os depoentes afirmaram isso. O último foi Miguel Arraes, grande articulador da resistência à Operação Condor, que assim se pronunciou: "JK foi assassinado."

Em 1968, você foi preso na mesma leva que deteve JK. O que guarda desse episódio?
Foi na noite de 3 de dezembro, até depois do carnaval. Três meses. Quando fui sequestrado, ouvi que naquela noite iam fuzilar JK. Incomunicável, acreditei, aquele tempo todo, que havia um paredão. Não fui torturado, mas em muitas noites vomitei ao ouvir berros e pancadas das outras celas. Fiquei numa cela miserável, com um cano de água, que usava para escovar os dentes, e um vaso sanitário. Esta foi a segunda prisão. No total, foram seis. Em 1965, quando ainda havia legalidade, fui processado por (Artur da) Costa e Silva, que, pela Lei de Segurança Nacional, queria me botar 30 anos em cana. O STF transferiu para Lei de Imprensa e peguei seis meses. Cumpri três: foi a única vez na vida que tive bom comportamento. Os militares ainda eram educados. Invoquei a convenção de Genebra e a comida melhorou, ganhei banho de sol e lençóis, e, no Natal, um coronel nos mandou peru, vinho, farofa e castanhas, da casa do comandante.

Você foi muito atacado quando recebeu benefícios como reparação aos danos. Isso o magoou? Vou contar só um episódio. Quando, em abril de 1964, escrevi, no "Correio da Manhã", o artigo "A revolução dos caranguejos", que atacava violentamente o movimento militar, tive que me esconder. No dia da publicação, três sujeitos foram à escola de minhas filhas, que tinham 12 e 8 anos, e disseram à professora que vinham buscá-las, que eram amigos dos pais e precisavam protegê-las pois estavam sob ameaça de sequestro. À saída, a dona do colégio, ao ver duas alunas com três homens estranhos à paisana, pediu documentos. Eles se recusaram a mostrar e puseram minhas filhas num carro. A mulher anotou a placa e nos procurou. Ênio Silveira, que tinha contatos, fez a coisa circular em meios militares e descobriu-se que o carro servia a um oficial da Marinha. Elas foram soltas aos empurrões. Durante o sequestro, haviam sido ameaçadas e insinuaram que tirariam, naquela noite, a sua virgindade. O resto são tecnicalidades que nem preciso mencionar, além do fato de os desembargadores nem terem lido o processo por serem contemporâneos e saberem o que passei. Mas nem se me dessem a Petrobras eu me sentiria compensado. Nem a Amazônia pagaria todo o meu sofrimento.

Por que sua aversão a livros inéditos de ficção? Você desistiu?
Olha, com "Pilatos", livro da década de 1970, eu disse tudo o que queria dizer. Thomas Mann, depois de escrever "Doutor Fausto", pensou em não escrever mais. E disse: "Infelizmente, vivi mais que minha obra." Teve que escrever ainda três ou quatro livros, tudo porcaria, pois precisava de dinheiro. Quando fiz "Pilatos" foi isso: fiquei 23 anos sem escrever. Aí veio o computador, e a doença de minha cadela Mila, eu escrevi "Quase memória" para suportar o sofrimento de ouvir seus gemidos.

"Quase memória" não é bom?
É um desabafo. O que escrevi depois foi por pura pressão comercial. Nada desse período interessa.

Como é sua rotina hoje?
Tenho um câncer linfático e estou em estado terminal há 11 anos. É o mesmo câncer da Dilma e do (Reynaldo) Gianecchini. Não perdi o cabelo, mas o tratamento enfraqueceu minhas pernas. O câncer, porém, não é mais a tal da insidiosa moléstia. Todo mundo tem um. A Hebe, a Ana Maria Braga, todos os líderes do Cone Sul, Lula, Fidel, Chávez, Cristina! Há 12 dias não saio de casa. Meses atrás fui a Nova York. Para visitar os museus, ser cadeirante é bom: fui tratado como príncipe, uma maravilha. No Marco Zero me puseram de cuecas para entrar.

Em "JK e a ditadura" você diz que, com a Frente Ampla, JK, (Carlos) Lacerda e Jango (João Goulart) provaram, tardiamente, que a Humanidade pode ser melhor desde que cada homem procure, no outro, o seu melhor. Você acredita nisso? Precisamos de homens cordiais, como JK?
Não. Em "O ventre", aos 32 anos, eu digo que só creio naquilo que pode ser atingido pelo meu cuspe. Como disse no meu discurso de posse na ABL, não tenho convicções firmes para ser de direita, disciplina para ser de esquerda nem a imobilidade do centro, que é oportunista. Sou um anarquista inofensivo.

A Academia foi uma concessão, em vistas desse ceticismo?
Entrei com 74 anos, idade com que morreu o JK. Desde 1964 já me haviam convidado. Acabaram me convencendo num movimento para legitimar a candidatura paralela, para outra vaga, de Roberto Campos, que até o Celso Furtado queria. Acabei cedendo, sob a condição de não fazer campanha. A Academia é um ambiente de cordialidade. Resumindo, porém, eu diria que é uma espécie de jardim de infância às avessas. No jardim de infância você não tem passado mas um futuro o espera, com relações novas e amigos vindouros. Na academia, não temos futuro. Temos todos um passado, se é que temos, bom, brilhante ou medíocre, mas 90% dos que lá estão não têm mais nada para fazer na vida. O futuro é o mausoléu.

Você tem medo da morte?
Não, a não ser do ritual da morte. Não quero velório. Nem quero ir para o mausoléu da Academia. Serei cremado. Toda a liturgia da morte hoje é uma contrafação, fria, impessoal. Já conquistei o que queria. Só me restam o Nobel e a morte. Como o Nobel não virá...


3 comentários:

  1. VERÔNICA (UM FATO REAL)(PARTE 1)

    Tudo estava de cabeça para baixo, quando o telefone tocou, era a notícia da salvação... Um professor me requisitara para compor a sua equipe de Estudo e Avaliação, na Presidência da República, em Brasília. Tudo estava tão perfeito que eu não conseguia pensar em ter algo que pudesse ofuscar o meu otimismo, mas eu era apenas uma jovem sonhadora... Se nas vielas mais simples tudo é mutável, imagine na nossa Administração Pública? A cada eleição, engaveta-se o “velho” para entrar o “novo”, é sempre um interminável recomeço de: projetos, recursos, idéias e material humano. Em uma dessas mudanças, meu Mestre voou para lecionar na Nova Zelândia, os outros integrantes da equipe retornaram para seus órgãos de origem e/ou universidades. Eu havia sido requisitada do Rio de Janeiro, e por motivos pessoais não desejava em nenhum momento retornar para o inferno, mas o que eu não sabia era que o inferno era ali mesmo... Tentei retornar para a Petrobras, no escritório de Brasília, mas o antro era fechado para os desconhecidos, e mais tarde eu soube o motivo; então aceitei o convite para permanecer como assessora de tecnologia em uma Secretaria. Eles não queriam que eu saísse, afinal eu trabalhava quase de graça, porque o salário que eu recebia da minha Empresa era um vexame, e eu nunca aceitei cargos comissionados. Aproveitando-se da minha inocência tentaram me fazer de “laranja” em uma licitação de aquisição de equipamentos de rede, e eu rejeitei tão glamoroso convite. Insatisfeitos, mostraram-me uma pasta com uma quantia suficiente para eu não trabalhar mais o resto da minha vida, e novamente eu recusei. Os burburinhos no Palácio rolavam pelos corredores, e eu me tornei um “problema” para os palacianos, que convocaram a Casa Militar, e jogaram-me dentro da Abin.

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  2. (CONTINUAÇÃO - PARTE 2)
    O nome dele era Coronel De Cunto, e eu jamais me esqueceria daquela figura, no mínimo, esquisita. Teceu-me vários elogios, inscreveu-me em vários cursos internos, e jogou-me para os “leões”, mas detalhe, com uma faixa na testa escrita – ESPIÃ – A arapongada se deliciou em ter um “inimigo” interno para torturar. Em 1997, não se podia mais aplicar torturas físicas, mas a psicológica era invisível e tão eficiente quanto. Primeiro me colocaram para trabalhar no CPD, mas como eu me destaquei em um dos treinamentos, o Coronel tentou me convencer a ser um deles, mas foi impossível. O sangue da minha mãe biológica corria forte em minhas veias, e eu jamais iria aderir àquele tipo de serviço, e quando percebeu que seria inútil, colocou-me sozinha em uma sala, com uma mesa e um computador, e vez em quando ele, ou o “capanga” dele, entravam no recinto e tentavam me induzir a pedir demissão do trabalho, voltar para o Rio, e viver sob a tutela do meu genitor. Ele havia trabalhado muito tempo no exército, e possuía a combinação perfeita que eles precisavam – inteligência, ambição e falta de caráter – sofreu uma perfeita lavagem cerebral, e virou um “monstro”. Tentou me violentar aos treze anos de idade, e depois tentou me transformar em um “soldado”, mas fracassou em todas as suas tentativas; e ao completar dezoito anos eu fui embora, deixando para trás uma família sob a tutela de um psicopata. Voltando à Abin, eu resisti enquanto pude ao “exílio aberto” que me fora imposto, até eu conhecer um nerd, por quem eu me apaixonei. Namoramos, juntamos e eu engravidei. Durante a gestação eu recebi várias ameaças, mas não acreditei em nenhuma delas. No final de agosto de 2001, eu dei entrada no Hospital Santa Luzia, em Brasília, com contrações muito fortes. Após quarenta e oito horas sob terríveis dores, eu tive hemorragia, e entrei na cesariana sem saber se voltaria... Ouvi o Alexandre dizer que entre filha e mãe, que ficasse a mãe. No meio daquele circo tive a intuição de chamar meu cardiologista, o médico de minha inteira confiança, desses que trabalham por vocação, sem fins lucrativos. A obstetra não gostou do convite, mas não pode impedi-lo de me ver. A criança nasceu forte e respirando, apesar da prematuridade, e eu sobrevivi a mais uma... Eu iria descer no dia seguinte para amamentar a minha querida Verônica, quando recebi a notícia de que ela havia falecido por insuficiência respiratória. Todos sabiam que não se tratava de uma fatalidade, e o pai, por medo, covardia ou fraqueza, deixou-me... Após cumprir o meu resguardo voltei para Agência, mas dessa vez eu não iria mais ficar ali, e voltei para a Petrobras, em Brasília.

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  3. (CONTINUAÇÃO - PARTE 3)
    Quando pensei que estava a salvo, a perseguição recomeçou novamente, mas dessa vez com novos protagonistas, o próprio pessoal da Petrobras. Vários incidentes ocorreram neste período: atearam fogo no meu apartamento, sabotaram meu carro por duas vezes, assediaram-me sexualmente no trabalho, isolaram-me socialmente, faliram-me financeiramente e deixaram-me profissionalmente improdutiva. Há pouco tempo eu consegui descobrir que durante a cesariana, eles ligaram as minhas trompas sem o meu consentimento.

    Transferiram-me para o Rio em 2006, e a perseguição continuou, e dessa vez tentaram me aposentar por invalidez. Ouvi os maiores absurdos dos gerentes. Os meus dois últimos relacionamentos eram policiais que foram plantados. Em 2009, resolvi comprar um imóvel com o meu fundo de garantia, e foi quando eu me deparei com um juiz trabalhista, que após receber R$ 20.000,00 de sinal, e ter assinado um contrato de compra/venda, desistiu da venda, e não me devolveu o sinal, alegando os maiores absurdos. Entrei com um processo no TJ RJ para tentar recuperar o meu prejuízo, e até agora, nada, por outro lado, o tal juiz, entrou com um processo na esfera Federal, na área penal, por danos morais, contra mim... No mês passado fui chamada na 5ª. Vara do Tribunal de Justiça Federal para uma audiência pública, onde os pares tentaram me persuadir a “esquecer” de reaver os meus direitos, sob pena de reclusão por ter ferido a imagem do tal magistrado...

    E como dizia Thoreau: - “Sob um governo que prende injustamente, o lugar de um homem justo também é na cadeia...”.

    Tentei tornar o meu caso público, mas fui vetada em todos os meios de comunicação.

    Liberdade de expressão, democracia, liberdade de imprensa... Para quem?

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