"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Giacomo Leopardi... Ou: o mestre pessimista de Recanati...

Foi o mendigo K., quem lembrou que está acontecendo um Festival de Cinema na cidade...  Vendo minha cara de desinteresse e de déjà vu, retrucou: - tenha paciência, cada um engana, mente e foge do tédio como pode... Desta vez levava no fundo de um saco plástico, desses vagabundos de mercado, um livro de Giacomo Leopardi. Giacomo Leopadi!? Por coincidência, lembrei de imediato, em minha casa paterna & materna, além de uma bíblia, que ninguém lia e de um espesso tratado sobre curas fitoterápicas havia um outro livreto, não me recordo o título, (talvez Opúsculos morais) que era exatamente desse tal Leopardi. Quando o vi por primeira vez achei que se tratasse de mais um santo ou então de algum escrito sobre leopardos... A obra desse genial pessimista que ficava lá no meio de umas estatuetas de anjos, escapulários, copos de água benta, cartuchos de revólver etc., de um dia para outro sumiu. Nunca mais a vi e nunca mais pensei nela... É curioso que me apareça agora, meio século depois, em formato de Obra Completa, impressa em papel bíblia e nas mãos de um mendigo...  E este fez questão de mostrar-me que estava lendo o texto que vai da página 478 até 480. Vi logo que se tratava do horror que é ter que ouvir poesias, escritos ou recitações dos outros. Dizia Leopardi:

 "Se tivesse o engenho de Cervantes, escreveria um livro, como ele o fez para purgar a Espanha da imitação dos cavaleiros andantes, eu o faria para purgar a Itália, ou antes, o mundo civilizado, de um vício que, tendo em mente a mansuetude dos costumes atuais, e talvez mesmo sem considerá-la, não é menos feroz e nem menos bárbaro que os vestígios da ferocidade dos tempos medievais castigados por Cervantes. Refiro-me ao vício de ler ou de recitar para outros as próprias criações que, sendo antiquissimo, foi, em séculos anteriores, mazela tolerável, porque rara; mas agora que todos têm ambições literárias, e coisa dificílima é encontrar alguém que não seja autor, tornou-se um flagelo, uma calamidade pública e uma nova tribulação para a espécie humana. E não é gracejo, mas inteira verdade afirmar que para esse autor os conhecimentos são suspeitos e as amizades, perigosas, e que não há hora e nem local para o temível assalto ao inocente, que será constrangido, ali mesmo ou adiante, ao suplício de ouvir prosas sem fim e versos incontáveis, não mais sob o pretexto da opinião, que por longo tempo susteve tais recitacões, mas simples e exclusivamente para gozo do autor e pelo gosto do aplauso inevitável. Creio, em sã consciência, que em pouquíssimas ocasiões se denuncie mais claramente, por um lado, a frivolidade da condição humana e o extremo da cegueira, ou antes, da estupidez a que chega o ser humano, levado pelo amor-próprio; e por outro, quanto nosso espírito se possa iludir, como se observa no negócio de recitar as próprias criações. Mesmo consciente do tormento indescritível que representa ouvir composições alheias e vendo transtornadas e esmorecidas as pessoas convidadas a esse espetáculo particular, que por sua vez alegam toda sorte de impedimentos para escusarem-se, esquivarem-se e 
retraírem-se a mais não poder, há quem, com ânimo ferrenho, com perseverânça admirável, como um urso 
esfaimado, procure e persiga sua vítima por toda a cidade e, alcançando-a, arraste-a ao local destinado...."

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