"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

E prossegue Giacomo Leopardi... [3]

"Assim é o homem. E esse vicio a que me refiro, tão bárbaro, tão grotesco e contrário à concepção de criatura racional, constitui verdadeira chaga da espécie humana; não há condição humana, nação nobre ou século que esse mal não tenha contaminado. Italianos, franceses, ingleses, alemães; homens experientes, preparadíssimos em todas em todas as outras coisas, pródigos em engenho e valor, exímios conhecedores da vida social, elegantíssimos de maneiras, amantes de espreitar as tolices e motejá-las, todos tornam-se crianças ferozes ao recitarem as próprias produções. Assim como esse vício é dos tempos modernos, também o foi dos tempos de Horácio, a quem já parecia insuportável, e dos tempos de Marcia, que, quando inquirido por alguém por que não lia seus versos, respondia: "para não ouvir os teus". Nas melhores épocas da Grécia, conforme se conta, Diógenes, o cínico, encontrando-se, junto a outros, todos mortificados de tédio, em uma de tais lições e entrevendo, nas mãos do autor o branco do papel no final do livro, disse: "Animai-vos, amigos, vejo a terra". Hoje, a situação é tal que os ouvintes, mesmo forçados, a custo conseguem satisfazer às necessidades dos autores. De forma que alguns conhecidos meus, homens industriosos, considerando esse ponto e convencidos de que recitar as próprias criações seja uma das necessidades humanas, pensaram em dar-lhe sustento e ao mesmo tempo transformá-la, como se transformam todas as necessidades públicas, em utilidade privada. Para levá-lo a termo, em breve abrirão escolas, academias e ateneus de ouvintes, onde a qualquer hora do dia ou da noite, eles ou funcionários remunerados por eles ouvirão leituras, por preços determinados, que serão: para prosa, pela primeira hora, um escudo; pela segunda, dois; pela terceira, quatro; pela quarta, oito, numa progressão aritmética. Para poesia, o dobro. Se desejada a releitura de certo trecho, como ocorre, uma lira por verso. Se o ouvinte adormecesse, seria devolvida ao leitor a terça parte do preço pago. Em caso de convulsões, síncopes e outros acidentes, leves ou graves, que pudessem ocorrer a uma e outra partes durante a leitura, a escola seria provida de essências e medicamentos, gratuitamente oferecidos. E, assim, transformando em objeto de 
lucro algo até então infrutífero, isto é, os 
ouvidos, um novo caminho se abrirá para a indústria, com aumento da riqueza geral."

3 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkk E eu aqui pensando em lhe mandar alguns dos meus versos! kkkkkkkkkkkkkkk

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  2. KKKKKKKK...Adorei,Mhelena!!! Pode até ser um pouco egoísta, mas costumo deixar os meus textos em uma pasta chamada "Meus Documentos"... Só alguém que não tenha o que fazer, ou alguém com mania de "arapongagem" é que irá abrir a pasta para ler minhas besteiras... Eu só publico os recadinhos que envio de forma "indireta" para os curiosos que "me monitoram"...kkkk kkkk kkkk... Quanto ao texto, o Ézio tem sempre umas tiradas no mínimo instigantes...Adoro esse senso crítico ácido, e ao mesmo tempo peculiar...

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  3. Como vão monitorar você, se você é anônimo????(rsrsr)

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