"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Se o mundo pegasse fogo... você salvaria o mundo ou o fogo???

Não sei se por alguma perversidade ou por algum desvio neurológico, um dos elementos que sempre me fascinaram além do normal, foi o fogo. Um incêndio no cerrado e o cheiro da fumaça - por exemplo - já bastam para provocar-me alguma coisa estranha, até mesmo de ordem sobrenatural. Serei um piromaníaco em potencial? Desde minha infância trazia secretamente a Nero como um herói  e foi grande a decepção quando, recentemente, descobri que o tal incêndio de Roma foi uma falácia. Com o incêndio do Reichstag, em 1933, tive durante toda minha adolescência sonhos obstinados. As fogueiras que Hitler e outros loucos e tiranos fizeram com livros, papiros, documentos, assim como as da inquisição incinerando feiticeiras e mesmo as das feministas carbonizando seus sutiãs, nunca me passaram despercebidas. Pensar que a Biblioteca da Alexandria foi incendiada também me causa algo indescritível, quase como quando medito sobre a incandescência dos infernos... Estou convicto de que há algo no movimento das labaredas que até hoje não foi realmente descrito! E não precisa nem ser de uma grande fogueira, mesmo ali nas chamas de um simples isqueiro de querosene pode-se encontrar algo de transcendente. Daí a razão de, nas últimas décadas, nunca ter cruzado o umbral de minha casa sem uma dessas preciosidades no bolso. Diante de uma dificuldade inesperada? De um impulso justiceiro? De um obstáculo? De uma depressão reativa? Lá estou eu escondido do vento e por uns dois minutos, com os olhos cravados nas chamas esperando por sua ação terapêutica... Estes meses e esta semana foram particularmente pródigos em incêndios pelo mundo a fora. A Turquia teve os seus, Londres e a favela de Paraisópolis em São Paulo também. Em Portugal, nas cercanias de Coimbra, centenas de ovelhas que não conseguiram pular as cercas acabaram queimadas. Nas Ilhas Canarias, no Colorado e até mesmo aqui na cidade, um num restaurante e outro numa residência, sem falar daquele de ontem lá de Copacabana que chamuscou, entre outras preciosidades, uma pintura de Di Cavalcanti e o gato do marchant. Indo de Beijing a Xangai, uma das paisagens mais estonteantes vistas da janela do "trem bala" era, no princípio da noite, exatamente a dos imensos fogaréus empurrados pelo vento ao longo dos trilhos e ziguezagueando demoniacamente em todas as direções... Está na cara que quando o titã Prometeu roubou o fogo de Zeus e o disponibilizou de graça aos humanos, sabia muito bem o que estava fazendo...



2 comentários:

  1. Gostei mesmo do marchant de Copacabana que, num ato de coragem, manifestou aborrecimento quanto as grandes preocupações com as obras de arte que se foram e que em nada valiam diante da morte do seu gato... Senti, imaginei e concordei com toda a sua dor.

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  2. Pois é. Tanto lixo enquadrado e pendurado na parede, com muitos seguranças pra cuidar... E obras-primas olvidadas...

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