"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 18 de agosto de 2012

Apesar dos poetas, o melhor da Capital ainda é a Feira do Paraguai...


Apesar dos elogios descabidos e da benevolência sistemática da mídia para com esta cidade e apesar dos esforços, do lirismo e da incansável apologia dos poetas (esses seres de outro mundo que, de tantos, até parecem ser fruto de uma geração espontânea) a esta urbe, o que existe de melhor aqui em Brasília é a Feira do Paraguai. Localizada à margem direita da Via EPIA, (estrada que leva para Goiânia e para outros cafundós) num terreno que, soube-se na semana passada, também tem origens na grilagem, lembra as medinas de Marrakesh, as de Tanger ou qualquer outra dos países magrebinos com seus souks. E não é por acaso que aos sábados, aos domingos e feriados é para lá que vão os barrigudinhos funcionários públicos com suas esposas e filhas ver as novidades que chegam de madrugada, por debaixo dos panos, não só do Paraguai, mas de Miami, Xangai e etc. O que na China custa 0,50 de dólar, aqui os gestores e os Cargos de Confiança pagam 55 reais sem pechinchar e sem piscar. Mas isto é o de menos. O que faz esse lugar ser mais atraente que o Congresso, que a Catedral, que os espelhados prédios dos juízes, que o templo da LBV, que as antigas Zonas de Planaltina e que toda a monótona arquitetura de Niemayer é que ali é um território verdadeiramente cosmopolita, transnacional e planetário. Há chineses, libaneses, palestinos, judeus, indianos, latino-americanos, mineiros, alagoanos, gaúchos... Os haitianos já estão a caminho... Ex-hippies; ex-contrabandistas e camelôs; aposentados; licenciados pelas mais diversas razões; grevistas, mulheres que já foram da vida e outras que, se pintar uma chance, ainda fazem algum freelancer; cozinheiros, apátridas, policiais infiltrados, videntes dispostos a mentir qualquer coisa sobre a imensidão do mundo, professores de mandarim, pasteleiros, vendedores de cachorros, de acarajé, coco, rapadura, viagra, caldo de cana, coisas legítimas e falsificadas (ao gosto do cliente), baterias, rabichos, óculos mais escuros que a escuridão do Hades, mulheres com véu, espadas, varas de pescar, punhais... E há estagiários; técnicos em eletrônica, batedores de carteira, ex-políticos disfarçados, sujeitos desempregados, concurseiros (todos querendo ingressar no STJ) bandidos em liberdade condicional e, claro, um batalhão de nerds que, por saberem tudo sobre essa infernal Era de porcarias cibernéticas, ensinam pacientemente aos velhotes do século passado a como apertar um botão aqui e a desativar outro ali etc... De vez em quando a polícia aparece por lá de supetão com seus camburões piscando e encana os gerentes de um ou dois clãs, confisca o material clandestino, lacra a tenda, olha enviesado para todo mundo e vai embora... Uma semana depois os detidos voltam como se nada tivesse acontecido e asi se van los dias... Quem está sempre por lá é o meu velho amigo, o mendigo K. Come um resto de pastel aqui, ganha uma água de coco ali, descola uma moeda de uma alma bondosa acolá e circula por aqueles labirintos como se fosse o principe dos vagabundos. Neste sábado, como sempre, estava com um livro debaixo de braço. Veio em minha direção com sua cara de nômade celeste e, sem dizer palavra alguma mostrou-me a epígrafe que estava no rodapé da segunda folha. Era de Arthur Cravan e dizia:

“Eu, a quem basta ouvir um violino para ficar com fúria de viver; eu, que me poderia matar de prazer, morrer de amor por todas as mulheres, que tenho saudades de todas as cidades, para aqui estou, porque minha vida não tem solução...”



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