"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 28 de julho de 2012

O tédio e o gozo de pilotar motocicletas...



Com a umidade do ar abaixo de 20% e correndo o risco de ter uma embolia cerebral ou até mesmo um derretimento do cerebelo, passei umas duas horas lá na Granja do Torto onde está acontecendo outro encontro anual de motoqueiros. Segundo os jornais, uns dois mil e tantos e de todo o país. Como não tenho o mais mínimo interesse por esse assunto, só fui até lá fazer este registro porque parece tratar-se realmente de uma fauna exótica, de seres que sobraram da pedra lascada, algo como uma maçonaria de andarilhos, uma legião de piratas sem caravelas, uma cavalaria sem cavalos em busca do Santo Graal e sem as peripécias formais das cruzadas... Um bando de peregrinos em direção ao santuário da alienação e de solitários interligados pelo asfalto... ou algo assim... Com seus casacos de couro, suas camisetas, seus coletes pretos, suas caveiras tatuadas e seus olhinhos infanto-juvenis parecem ter sido todos engendrados na mesma fornalha e estarem voltando de Woodstock ainda com a cítara de Ravi Shankar ecoando nos miolos... Claro que se fala mais na idílica Rota 66, em bielas e em turbinadas do que em Heráclito..., muito mais em longos trajetos do que em longas reflexões filosóficas...,  apesar de muitos, com certeza, terem lido o badalado ZEN E A ARTE DE CONSERTAR MOTOCICLETAS..., também On the Road e, claro, assistido várias vezes ao filme Easy Rider... Uma cordialidade pra lá de cristã entre eles próprios e com qualquer forasteiro que apareça por lá. Se estiver com uma câmera fotográfica ligada então... Por falar em cristã, alguns grupos, pelos nomes, parecem ter se originado em sacristias: Esquadrão de Cristo, Cruz de ferro,  Ordem dos cavaleiros de São Jorge, Monges etc... Apesar das barbas de matusalém de alguns e dos bigodes queimados pelo tempo e pelo sol das estradas, de outros, parecem, na verdade, uma trupe de adolescentes exibindo e se divertindo com seus brinquedos... Digamos, uma ludoterapia... Quase todas máquinas potentes, até umas Harley-Davidson, umas inteiras em inox, outras cromadas, outras de ferro bruto, outras de três rodas e cada uma com o símbolo da confraria ou do clube a qual o piloto pertence. Contei mais de cinquenta e, curiosamente, 99% delas com nomes de animais: Bodes do asfalto; Asas de águia; Os lobos negros; Aranhas do asfalto; Cupim de ferro; Falcão peregrino; Abutres; Os boca de porco etc. Também havia pelo menos três confrarias femininas: Divas insanas; Medusa e Bruxas. Dificil negar que no ar seco da tarde levitava alguma coisa derivada do tédio... Apesar de em telões aqui e ali Pink Floyd e o rock in rol já estarem comendo solto, nenhum cheiro da erva dos anos 60. Ou lhe retiraram geneticamente o odor ou já é coisa do tempo dos dinossauros. A cerveja sim! Cada um, homens e mulheres, exibia sua lata como se fosse um troféu, um signo de sapiência e de adaptabilidade. Não me canso de tentar entender como foi possível viciar tão facilmente o estômago e as tripas da humanidade com essa beberagem desprezivel.., com essa espécie de urina enlatada...

Um comentário:

  1. Só existe UMA cerveja possível: Heineken. O resto é urina enlatada mesmo.

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