"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Viagem ao fundo da noite 3


1. Dando continuidade ao “proselitismo” , a estação de trens de Beijing sul é maior, mais luxuosa, mais funcional e mais estupenda que todos os aeroportos brasileiros juntos. A Estação da Luz e a Central do Brasil, se comparadas, não passam de dois galinheiros. E repito – para estressar os chauvinistas – que tudo aí na terra dos papagaios é sucateado, provinciano e menor, muito menor... Motivo pelo qual as últimas dez gerações de políticos e administradores deveriam ser chicoteadas e os que já morreram desenterrados e pisoteados... E aqueles ingênuos que pagam por aí verdadeiras fortunas para seus filhos estudarem em escolas vagabundas, deveriam usar esse dinheiro para incentivá-los a, antes de qualquer coisa, darem cinco ou seis voltas ao mundo... Também não deveriam esquecer que aquele chinesinho que de vez em quando aparece nos bares, no meio do crepúsculo, vendendo porcarias, não é necessariamente um débil mental como se pensa. De uma maneira ou de outra ele está ajudando a engendrar e a levantar todo este império...

2. Entrei novamente na fila, na imensa e emocionada fila para ver outra vez o esquife do Mao. Estava lá, na mesma posição e com a mesma santidade que há uns vinte anos atrás, com uma pele mais saudável que a minha e ainda coroado de glorias... O fervor! O que é o fervor devocional?

Como milhares de outras a mulher que estava ao meu lado depositou aos seus pés um crisântemo amarelo. Ele, que segundo a lenda, comia cinco ou seis por dia, permaneceu absolutamente imóvel e indiferente...

3. Sobre limpeza, nossas “empregadas domésticas” deveriam fazer um estágio aqui! Pelo menos no circuito “moderno” a limpeza é pra lá de exagerada. Com uma população dessas não encontrar nenhuma migalha e nem sequer uma cabeça de fósforo nas calçadas, nos metrôs, nos parques etc, parece até um “milagre”. Nada. Para qualquer lado que olhes lá está uma “escrava” com seu paninho ou com sua vassoura. E a limpeza não é superficial nem só de fachada não. É com o maior cuidado por cima, por baixo, pelos lados, por dentro, de forma circular e longitudinal como se fosse o último e derradeiro ato revolucionário... Mas... mas... existem ainda as velhas escarradas! Parecem ter um demônio na garganta. Primeiro o ruído asqueroso da coleta do material e em seguida o tiro certeiro para fora, ou numa parede, ou num esgoto, numa lixeira, pela janela do ônibus ou nas escarradeiras. Por sorte uns ingerem o tenebroso material... Há quase um século atrás quando fui a Macau já experimentei bons momentos de náusea por isso. Os velhos portugueses de então, tentando coibir essa nojenta perversidade, encheram a cidade de placas proibitivas... Nem eles e nem a Grande Marcha parecem ter resolvido o assunto...

Neca de blogs, de facebook ou de You tube por estes lados... Et la liberté??? Que liberté??? Chega de cacarejar sobre essa bobagem burguesa! Desde quando acessar uma internet é signo de liberdade? E depois, não há liberdade. De um lado a outro da terra o que se vê é só gado marcado, ajoelhado, resignado, na coleira e, misteriosamente feliz...

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