"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 8 de maio de 2012

OS RIOS E SUAS FRESCAS MARGENS...


Independente do que pensam os sábios, os visionários e até mesmo os ruralistas a respeito do clima, da erosão, do assoreamento, do degelo das calotas, dos calorões infernais das cidades, dos tufões, da morte da terra e das raízes, das chuvas de raios, da desertificação da vida, do extermínio dos grilos, das perobas e das raposas, até os camponeses da Idade da Pedra já sabiam por instinto e por sensibilidade estética que as margens dos rios não são desmatáveis... Lutar para preservá-las, já entre eles devia ser uma obrigação e uma obsessão mesmo que fosse apenas para nelas pendurar uns cipós e ali ficar se espreguiçando até que as ratazanas devorassem de vez esse imenso requeijão que é o mundo... 
 Não é possível - resmungava hoje a tarde um lírico em estado agudo de embriaguez - que os senhores da soja, das vacas, da cana de açúcar e das motosserras não tenham nunca se deliciado à sombra dos arvoredos nativos... junto à penumbra dos córregos e das cachoeiras ouvindo o borbulhar da correnteza, o chocalho das cascavéis e os pingos da seiva fresca que despencam das copas... enquanto ao redor tudo se incendeia e arde num escorchante horror desértico e burocrático de mesquinharias, de monólogos, de intrigas, de códigos florestais e de máquinas... 
Um outro alcoolista que o ouvia resmungou: depois de tão longa e tenebrosa história de degradação tanto do meio ambiente como da vida, de onde adveio, de repente, todo esse cuidado, essa veneração e esse zelo pela terra? Pelos matagais, pelas pedras, pelas serpentes e por seus outros e inúmeros elementos? 
Não obteve resposta alguma.
Apesar desse heroico quixotismo é até estranho pensar que um dia, um belo dia, inclusive o sol em seu esplendor e grandeza terá suas energias esgotadas e se apagará como uma mísera vela esquecida sobre uma lápide... Mesmo que não seja amanhã de manhã... um belo dia se apagará... Ah, mas não se alegrem! A humanidade e principalmente aqueles que já estão exaustos ainda terão que esperar um bom pedaço de tempo...
Por agora, com rios ou sem rios, com as 4 estações ou sem elas, com escorpiões ou sem escorpiões, com degelos ou sem degelos, com pinguins ou sem pinguins, com fotossíntese ou sem fotossíntese, com as burrices deste ou de outros códigos florestais é sempre recomendável ser o mais cético possível. Lembrar que no geral, não somos boa gente e que até agora, em praticamente todos os nossos assuntos cotidianos, as árvores têm servido apenas para esconder o bosque...
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Enfim, só para incrementar: em 1878 Eça de Queiroz (um dos poucos portugueses que se salvam) já citava este pensamento de Proudhon: "Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo".
P.J. PROUDHON

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