"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

OS LIMITES DO NARCISISMO... OU, A BURGUESIA FEDE!!!


O affair da moça que na semana passada teve algumas fotos pirateadas de seu personal computer e divulgadas na internet por uns sedentos voyeristas tem propiciado várias discussões aqui na Capital da República, não apenas nos meios acadêmicos, mas nas ruas e até mesmo entre a peãozada que transita de uma obra a outra vendendo seu sangue aos mesmos patrões de sempre. Uma dessas discussões insistia na triste decadência e na triste desmoralização da verdadeira e heroica pirataria do passado, aquela gerenciada por bandidos corajosos, ilustres, caolhos e manetas que com suas garruchas e espadas infestavam e aterrorizavam os mares caribenhos para saquear  dos navios as riquezas que a monarquia espanhola vinha rapinando nos territórios peruano, colombiano, panamenho, mexicano etc. Que distância absurda entre aqueles piratas destemidos de alto mar e os pobres garotos de agora, enclausurados em seus insalubres casebres, viciados na internet e eufóricos por usurparem umas míseras imagens e retratos de pobres mocinhas anêmicas ou de pobres e gorduchas donas de casa se olhando as nádegas nos espelhos, fornicando consigo mesmas, treinando gemidos libidinosos, depilando-se as partes menos visíveis... imitando Messalina com pequenos baby-dolls transparentes ou, quase hebefrênicas lendo autoajuda longa e confortavelmente no trono... Outra das discussões que esse caso gerou coloca o foco sobre as inúmeras perversões domésticas praticadas cotidianamente, mas que ninguém quer ver tornadas públicas. Verdadeiras loucuras e bizarrices escatológicas que cada um chega a praticar na solidão insólita de seu próprio corpo, com seus buracos, ruídos, fedores... com os elementos que são expelidos por eles e com suas análogas paranóias... A outra, mais sofisticada e mais erudita, que realmente só ouvi em círculos bem mais restritos, especulava sobre os limites contraditórios do narcisismo. De como deve ser difícil passar a vida inteira programando-se para gabar-se, para mostrar-se, para exibir-se, para pavonear-se, para turbinar as fantasias pansexuais do populacho etc.,... e de repente, (por razões não muito fáceis de explicar) ter que recuar, voltar atrás, recolher os gestos, as fotos, as poses, as palavras, os cheiros, os chiliques e às vezes até o delírio de grandeza e de perseguição... Aliás, tanto o delírio de grandeza como o de perseguição – nos lembra Szasz – são processos psicológicos através dos quais o sujeito procura se defender do sentimento insuportável de sua própria mediocridade...
Enfim, sempre que acontecem coisas desse tipo por aí, seja com o modernismo da internet ou como no passado, pelo buraco da chave, volto ao mesmo local de minha biblioteca, apanho a mesma obra de 1200 páginas e releio os mesmos vinte ou trinta parágrafos que sempre e sempre me convencem da mesma coisa: a burguesia fede!

Um comentário:

  1. Burguesia
    (Cazuza/George Israel/Ezequiel Neves)

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    A burguesia não tem charme nem é discreta
    Com suas perucas de cabelos de boneca
    A burguesia quer ser sócia do Country
    A burguesia quer ir a New York fazer compras

    Pobre de mim que vim do seio da burguesia
    Sou rico mas não sou mesquinho
    Eu também cheiro mal
    Eu também cheiro mal

    A burguesia tá acabando com a Barra
    Afunda barcos cheios de crianças
    E dormem tranqüilos
    E dormem tranqüilos

    Os guardanapos estão sempre limpos
    As empregadas, uniformizadas
    São caboclos querendo ser ingleses
    São caboclos querendo ser ingleses

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    A burguesia não repara na dor
    Da vendedora de chicletes
    A burguesia só olha pra si
    A burguesia só olha pra si
    A burguesia é a direita, é a guerra

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
    Vai haver uma revolução
    Ao contrário da de 64
    O Brasil é medroso
    Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia
    Vamos pra rua
    Vamos pra rua
    Vamos pra rua
    Vamos pra rua
    Pra rua, pra rua

    Vamos acabar com a burguesia
    Vamos dinamitar a burguesia
    Vamos pôr a burguesia na cadeia
    Numa fazenda de trabalhos forçados
    Eu sou burguês, mas eu sou artista
    Estou do lado do povo, do povo

    A burguesia fede - fede, fede, fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

    Porcos num chiqueiro
    São mais dignos que um burguês
    Mas também existe o bom burguês
    Que vive do seu trabalho honestamente
    Mas este quer construir um país
    E não abandoná-lo com uma pasta de dólares
    O bom burguês é como o operário
    É o médico que cobra menos pra quem não tem
    E se interessa por seu povo
    Em seres humanos vivendo como bichos
    Tentando te enforcar na janela do carro
    No sinal, no sinal
    No sinal, no sinal

    A burguesia fede
    A burguesia quer ficar rica
    Enquanto houver burguesia
    Não vai haver poesia

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