"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

lições de sarcasmo...


Nos dias em que não tenho absolutamente nada para fazer costumo baixar as mangas, abotoar a gola da camisa, endireitar as pontas do bigode e entrar num banco qualquer para simular um empréstimo. Os cabelos brancos ajudam e muito nesse tipo de aventura. Os funcionários e principalmente os gerentes já sabem que normalmente se trata de um velhinho arruinado que já está com um pé na cova e que quer dinheiro emprestado para pagar dívidas e morrer sem dever nada a ninguém... Mesmo que o chefe esteja ocupado sempre dá um jeito de dar-me prioridade, chama logo a secretária que vem toda prestativa e com a calça enfiada entre os grandes lábios para oferecer-me um bombom de hortelã e o clássico copo de água.
- Então o Dr. precisa um empréstimo de 200 mil reais?!?! Hunn... Compra de imóvel, lancha, automóvel??? e já vai teclando o computador, olhando-me as unhas e os dentes de soslaio para saber se não está ali perdendo seu precioso tempo ou mesmo correndo o risco de colocar o dinheiro do patrão numa fria...
- Duzentos mil.... duzentos mil... Nossas condições e nossos juros são os melhores, o senhor sabe?,... hã...hã...hã... Essa época é boa dr... houve uma boa redução nas taxas... A dona Dilma tá botando pra quebrar! 200 mil!!! 200 mil!!! Vamos ver a simulação... Pronto. O dr... terá uma prestação de três mil reais mensais descontada já no seu contra cheque, durante vinte anos... 
Três mil mensais durante vinte anos? Está bom mesmo! - Recito olhando-o singelamente nos olhos. Puxo uma caneta e vou rabiscando e falando ao mesmo tempo: Deixa-me ver... Vinte anos! Vinte anos são... 240 meses... cada mês 3 mil... então significa que pelos 200 mil vou pagar ao banco 720 mil?
- É isso mesmo doutor! Em nenhum outro banco o senhor encontrará algo melhor...
Involuntariamente pronunciei em voz alta: vá foder outro meu amigo!!! Quê porra de redução de juros é essa??? E no traseiro, não vai nada??? Tive a impressão que ele não entendeu minhas três indelicadezas e voltou a fazer cálculos e mais cálculos em seu computador como se estivesse apenas aguardando minha decisão de penhorar ou não as tripas naquele covil...
Promessas de um lado e de outro... até que me retiro com seu cartão e telefone na mão, pronto para explodir numa gargalhada, mas ruminando sobre a origem da usura, do cinismo, da canalhice e do agiotismo generalizado e principalmente na diferença que há entre assaltar a mão armada e assaltar assim, engravatado e sorridente, respaldado pelo Estado, pela Justiça e até mesmo por suas próprias vítimas...

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