"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 13 de maio de 2012

Fênix... uma ave sem mãe...

No meio da multidão que comprava pequenas porcarias para presentear suas mães encontrei novamente o mendigo K. Estava meio atordoado com o zum zum zum da tropa e foi logo cantarolando: Mãe é mãe... vaca é vaca... Sorriu por uns instantes e resmungou: sorte que nem sequer conheci aquela que me pariu...  Desde minha infância - foi confidenciando já com outro humor - a ave que mais me fascinou foi sempre a fênix. Coincidentemente, ela também não tinha mãe! Apesar de sua imagem lembrar vagamente a de uma galinha, sempre esteve em primeiro lugar no zoo de meu imaginário. Mesmo que seja tudo mentira e infantilização o que os chineses, os egipcios e os gregos (na poesia de Hesíodo) disseram sobre ela, o mito ao seu redor é encantador e quase terapêutico. Já imaginou um ser que entra em combustão espontânea, é aniquilado pelo fogo e que em seguida renasce das próprias cinzas? Pois é, esse era parte do ciclo existencial dessa ave. E mais: só existia uma no mundo! Uma única... e que normalmente vivia até quinhentos anos! Existirá maior condição de soberania do que essa? Os russos acreditavam que ela estava sempre em chamas, daí a razão de a conhecerem por Pássaro de fogo. Dizem que essa ave fascinante - que foi até usada pelos cristãos para fortalecer o sofisma da ressurreição e da eternidade - quando sentia o "peso da idade" preparava ela mesma uma pira funerária e se imolava sobre ela (ilustração acima). Sabe-se que o Benu do Egito tinha uma história parecida e que quando já havia vivido o suficiente voava para a cidade de Heliópolis (hoje periferia do Cairo), pousava sobre a pira de um deus da época, se deixava queimar soberbamente e renascia das cinzas. Um relato mais poetizado ainda - seguia confidenciando-me com entusiasmo - diz que essa ave montava uma pira com ramos de sálvia, canela e mirra e sobre ela, emitindo apenas um canto melancólico, ardia no meio das labaredas. Ao renascer das cinzas colocava delicadamente os restos da ave incinerada dentro de um ovo de mirra e ia depositá-lo num altar de culto ao sol. Isso não é estupendo?
Fez uma pausa para ironizar o exército de mulheres que passava carregando sacolas e mais sacolas de presentes e voltou a cantarolar: mãe é mãe, vaca é vaca...  Gargalhou e voltou ao mesmo  tema: 
Em a Princesa da Babilônia, Voltaire, tratando da ressurreição da a palavra a uma fênix: 
          — A ressurreição – disse-lhe a fênix, – é a coisa mais simples deste mundo. Não é mais surpreendente nascer duas vezes do que uma. Tudo é ressurreição no mundo; as lagartas ressuscitam em borboletas, uma semente ressuscita em árvore; todos os animais, sepultados na terra, ressuscitam em ervas, em plantas, e alimentam outros animais, de que vão constituir em breve uma parte da substância: todas as partículas que compunham os corpos são transformadas em diferentes seres. É verdade que sou o único a quem o poderoso Orosmade concedeu a graça de ressuscitar na sua própria natureza.
          
          — E tu – perguntou o rei da Bética à fênix, – que pensas a respeito da
pretensão humana de dominar o conhecimento sobre a origem dos homens e, enfim, de todas as coisas?
          — Sire – respondeu a fênix, – sou ainda muito jovem para estar informada da antigüidade. Não vivi mais que uns vinte e sete mil anos; mas meu pai, que viveu cinco vezes essa idade, me dizia haver sabido, por meu avô, que as regiões do Oriente sempre foram mais povoadas e mais ricas que as outras. Sabia, por seus antepassados, que as gerações de todos os animais tinham começado às margens do Ganges. Quanto a mim, não tenho a vaidade de ser dessa opinião. Não posso acreditar que as raposas de Albion, as marmotas dos Alpes e os lobos das Gálias venham do meu país; da mesma forma, não creio que os pinheiros e os carvalhos das vossas regiões descendam das palmeiras e dos coqueiros da Índia.


          — Mas de onde vimos então? – indagou o rei.
          — Nada sei – respondeu a fênix. – Desejaria apenas saber para onde poderão ir a bela princesa da Babilônia e o meu querido amigo Amazan.

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Um comentário:

  1. Eu odeio o povo da Máfia de Branco, mas como não gozo de uma boa saúde, volta e meia estou a consultá-los, e ontem foi mais um desses dias... Por um momento eu achei que meus telefones não estavam mais grampeados, e marquei a consulta pelo meu celular. Durante a consulta tive que falar sobre o meu histórico, e comentei que perdi uma filha com apenas um dia de vida em 2001, que fiquei 48h em trabalho de parto e entrei na cesariana com hemorragia, e que ligaram as minhas trompas sem meu consentimento. Ele fingiu certo aborrecimento para analisar a minha reação, e insistiu para que eu respondesse por que eu não procurei a justiça. Justiça? Que justiça? Desde que fui submetida a esse amargo processo de perseguição que não fiz outra coisa a não ser colecionar registros de denúncias em todos os órgãos competentes, até perceber que não daria em nada, a não ser perda de tempo e desgaste emocional. Delegacias, Procuradorias, Ministérios Públicos, Tribunais, Secretarias de Direitos Humanos, Ong´s, Comissões do Legislativo; em todos esses locais existe um relatório meu narrando todos os fatos, com registros em delegacias e documentos protocolados; mas ninguém tem interesse em investigar nada, e isso é igual a um colar de contas, se puxarem uma, caem todas... Foi evidente a preocupação do doutorzinho em saber se eu ainda tenho a intenção de fazer “barulho” e brigar pelos meus direitos... Bem, ontem eu tive a certeza que ainda estou sob monitoramento...

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