"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 17 de março de 2012

Munducurus, Rousseau e os bons selvagens...

Os ingênuos, ignorantes, explorados e gananciosos indígenas que deixaram os portugueses, os espanhóis, os franceses, os holandeses e etc., cagarem em suas cabeças, comerem suas mulheres e jogarem seus filhos para os cães lá por 1500/1600, são os mesmos que agora estão vendendo suas terras a empresas como a irlandesa Celestial Green. Vejam que nome romântico e paradisíaco!

Cento e vinte milhões de dólares para a conta dos mundurucus por um pedaço de floresta maior que o país dos compradores… Duvido que não tenha um “intermediário” brasileiro e de colarinho branco na jogada, como houve lá nos tempos dos saques do Pau-Brasil e dos “droguistas do sertão”. E a pergunta principal nem é: o que os gringos vão fazer com essas terras e com tudo o que há nelas, mas o que os indígenas vão aprontar com toda essa grana. Acabarão por matarem-se uns aos outros? Irão morar à margem direita do Sena em Paris? Comprarão limusines japonesas? Talheres de prata? Trocarão o cauim e a cachaça por uísque escocês? Começarão a aparecer no Ratinho e no Faustão? Fundarão um banco? Descobrirão o agiotismo? Montarão algo como o Moulin Rouge nos arredores de Belém do Pará? Financiarão a campanha de um pajé para o Senado? Fundarão a Igreja da pólvora e de Tupã?? Industrializarão a guasca?

E onde estavam os ecologistas de plantão? As Ongs? Os Verdes, a CNBB, os nacionalistas, os florestófilos? Onde estavam os poetas naturalistas, a FUNAI, os “serviços de intelligentsia” e outros dorminhocos que deixaram que essa barganha acontecesse? Onde estava a direitona da Opus Dei ou os engravatadinhos da TFP que sempre gostam de fingir que defendem o patrimônio nacional? Onde estavam metidas as Esquerdas Unidas que tanto se preocupam com o destino do Irã e da Síria, mas que não viram acontecer sob suas barrigas esse descarado cambalacho? Pois nem é necessário ser um sertanista ou um visionário para entender que se no passado eram os portugueses - como escreveu o Frei Vicente Salvador - que andavam como caranguejos arranhando o litoral, atualmente são essas organizações forasteiras e "filantrópicas" que planam como abutres por sobre o desamparo de "nossos" nativos e sobre a solidão e o abandono de "nossas" selvas...

Obs: Sempre que coloco o ponto final em cada um destes textos, que geralmente são engendrados por impulso e no máximo em vinte minutos, ao fazer uma leitura dos mesmos sempre tenho a desagradável (e inconfessável) sensação de identificar aqui e ali algúm secreto e vergonhoso vestígio de moralismo funambulesco.

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