"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Eles não sabem que lhes estamos trazendo a peste...


Só quem já viveu por lá é que sabe quanto o México é realmente um país especial onde até os criminosos e o crime organizado têm nomes históricos e românticos. Um dos maiores cartéis de drogas do momento, por exemplo, se intitula Cavaleiros Templários e tem como dirigente um tal de Orozco! Nome grafado com as mesmas letras daquele do inconfundível muralista. Que beleza!!! Dizem que é uma dissidência de outro grupo que se chama La família. Mas isto não importa, o que me pareceu mais fascinante foi o comunicado que os tais Cavaleiros Templários enviaram às autoridades e aos grupos rivais garantindo que durante a visita do Papa ao estado de Guanajuato reinará a mais perfeita paz! Que manifestação de fé e de hombridade! Não conheço nada mais transcendente e espantoso de que a imagem de um bandido de joelhos, as mãos postas e resmungando uma oração com a cara voltada para o além... Nem a Camorra da terra do visitante é tão religiosa. Uma autenticidade e uma ética superior até mesmo a dos legendários Cavaleiros de Cristo da Idade Média. Claro que a cruzada agora - e as últimas decapitações que o digam - é bem mais pragmática. E digam o que quiserem, mas que é bastante simbólica essa trégua com a chegada do Papa, é. Seria algo como um ato de fervoroso reconhecimento ao Poderoso Chefão? Claro que não devem lembrar ou nem mesmo saber que lá num passado longínquo (1312) foi exatamente um Papa (Clemente) quem aniquilou com a Ordem onde buscaram inspiração... Em Cuba, por onde o representante de Deus também passará, pelo contrário, as chamadas Damas de Blanco, (mulheres de presos políticos) não garantem trégua alguma e prometem criar um auê e um tumulto diante das luxuosas anáguas do Sumo Pontífice... Lendo essas notícias, além de uma nostalgia imensa pelo México, me veio em mente outra vez a lenda de que enquanto o navio europeu que levava Freud e Jung ia aportando na Baia de NY, ao ver a multidão de curiosos e de neuróticos que os esperavam para ouvirem as primeiras conferências sobre a psicanálise, Freud teria cochichado ao colega alemão: eles não sabem que lhes estamos trazendo a peste.


Obs: este texto foi publicado 42 minutos antes do terremoto.

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