"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Compaixão e sexualidade...




Eu, que frequentemente tenho tido sentimentos e pensamentos piores que os dos jumentos para com o mundo e para com seus sete bilhões de homo sapiens (mais homo que sapiens), surpreendi-me ontem num transe intenso de compaixão por meu cachorro em sua longa e ridícula abstinência sexual. Trata-se de um Lhasa apso com um porte mais do que viril, umas patas de leão, duas bolas como ameixas japonesas, um latido de tremer as persianas e com um olhar de fazer qualquer cadelinha desinibida ficar molhada e de orelhas em pé, mas até agora nada... E já está com cinco anos!!!! O que, comparativamente, equivale a um homem de uns cinquenta. Já deixei-o correr atrás de todas as que passaram aqui por minha casa, fossem da raça que fossem; levei-o disfarçadamente aos pets lotados; coloquei anuncio em jornais dominicais; até propus um “enlace” a dona de uma cachorrinha marrom da mesma raça; fiz amizade com um sujeito pra lá de maluco e mau caráter que anda com uma toda preta com os pelos das orelhas enroscando na calçada, e nada... Uma menina elegante com menos de trinta anos quase chamou a polícia quando o deixei dar uma cavalgada em sua casta maltês. Um psicanalista com mais de noventa anos e que nas horas livres é também veterinário até sugeriu-me que buscasse alguma alternativa num Sex shop etc,. Porra! Chegar a isso não! Que mundo reacionário!!! A teoria da repressão sexual que levou indiretamente Wilhelm Reich à morte não lhes parece estar mais vigente do que nunca por aí? Aliás, ontem a noite voltei a ler a Função do orgasmo. Por mais curioso que pareça, as donas e os donos de cadelas têm para com elas o mesmo pudor e o mesmo cuidado que têm para com suas filhas virgens e adolescentes. Projetam nos animais as suas ideologias, seus traumas, seus moralismos e suas interdições libidinosas… Mas, será que eu não estaria fazendo a mesma coisa, projetando no meu cão a minha luxuria e a minha libertinagem? – indagou-me uma gorducha, cônscia de suas banhas e dona de uma poodle mais parecida a uma ovelha empertigada. Claro que não! Retruquei apressado, mas sem muita convicção e reforcei minha defesa agregando: qualquer um que tenha um pouco de “humanidade” se compadece ao ver o pobre cachorro copulando a vida inteira com almofadas, trepando nas pernas de mesas, em degraus de escadas, com um dicionário de sânscrito e até mesmo com sua própria sombra. Não é verdade?

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