"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 6 de março de 2012

BIENAL BRASIL DO LIVRO E LEITURA...


Os escritores, os poetas, os roteiristas, os cineastas, os funcionários das letras e outros artistas aqui do Distrito Federal estão indignados e encolerizados com os organizadores (que ninguém sabe quem são) da Bienal Brasil do livro e leitura que deverá acontecer daqui a uns meses. Nas queixas o sentimento predominante é o de não existência e o de não 'pertenência'. E também, claro, do velho horror à invisibilidade. As reclamações ásperas são explícitas e nada modestas: uns porque não foram chamados, outros porque não foram contatados, outros porque "não sabem o quê está acontecendo", outros porque foram excluídos, ignorados, desconsiderados. Uns porque gostariam de estar naquele evento falando sobre suas obras, lançando seus últimos rabiscos, socializando suas últimas elucubrações sobre as metonímias e sobre os acentos circunflexos. Outros porque viram suas idealizações serem pisoteadas, outros porque gostariam de ver suas próprias fotos estampadas em banners imensos no alto das torres, outros porque querem saber se vão ou não queimar incenso em sua homenagem enquanto estiverem tangendo as cordas de seus histrionismos. Outros simplesmente acham uma afronta que burocratas falem em literatura na cidade, na região e no país sem antes ter o seu aval etc. Há os que acreditam piamente que foram eles que semearam o saber aqui no cerrado e que portanto são os avós da kultura candanga, os ícones da sapiência panfletária, os representantes de Moisés no Planalto Central, a reencarnação de Homero nestes confins do Judas e que, obviamente, sem eles, os relógios do saber e da transcendência não funcionam. Um deles chegou a ligar-me de madrugada para comparar seus poemas com os de Borges e até mesmo para insinuar que suas obras, no porvir, abalarão o mundo etc., etc. Os Críticos Remunerados e os Cargos de Confiança não estão nem aí!, apenas, conforme o humor, jogam gasolina ou gelo nas
megalomanias de seus "pupilos" porque assim, quem sabe, melhorem sua visibilidade e seus próprios negócios na tal Bienal... Confesso que tenho sido até solidário com o queixume e com as lamúrias desses personagens, mas, sinceramente, isto tudo não lhes parece algo tão frágil & pueril que de cara compromete e rebaixa as "obras" dos reclamantes?!?
E é exatamente por esses e por outros delírios semelhantes que a cada dia me parece mais pertinente a ideia de que "no amanhã" os livros venham a ser sempre anônimos e que seus autores jamais sejam conhecidos.
Absurdo? É, isso mesmo! Pois que apareça na capa dos livros, e antes de tudo, o nome do autor, já me parece uma infâmia; que o sujeito reclame a autoria deste texto ou daquela narrativa então, uma infâmia e meia; que se atreva e ler seu texto ou recitar seus poemas em público... uma infâmia três vezes. E depois, nada é mais abominável do que essa comiseração fútil que leva o sujeito perplexo a mendigar um lugar nessa vitrine estatal de vaidades negociadas e de pequenos, engravatados e desvairados pavões.

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