"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ABAIXO AS PRISÕES, TODAS AS PRISÕES!!!


A matilha está em êxtase com a condenação do moço lá de SP a 100 anos de prisão. O mais ridículo é que a grande maioria dos que gritavam por "justiça" nos arredores do Fórum se fosse investigada iria em cana e nem sequer conseguiria um advogado que se atrevesse a comprar-lhe um habeas corpus.
Assisti ao julgamento. Ah, como tudo ainda é precário! Como ainda estamos psiquicamente na Idade da Pedra! Os álibis do réu, a fala dos juízes, dos advogados, da defesa e da acusação, das testemunhas, dos repórteres... As leis. Impossível divisar a fronteira entre "justiça" e "vingança", entre o que é razão e o que é material inconsciente e transferencial dos julgadores. E, afinal, sem cinismo: a vítima é quem morre ou quem mata??? Como os argumentos são capengas, ambíguos, relativos, pantanosos, e como as palavras são pobres e as provas insuficientes! Como falta objetividade! Num determinado momento tive até a impressão que o réu era o único naquela sala que não apresentava traços bordelines. Quando é que os filósofos e os psicanalistas assumirão os lugares dos advogados e dos juízes? Tanto o crime como a interpretação do crime submersos em subjetividades e o inconsciente, como sempre, burlando de toda e de qualquer mascarada de honestidade. Duvido que alguém saia de um desses julgamentos convicto de que nele se fez justiça. Noventa ou cem anos de prisão! Aliás, quem é que se abalou com os quase 400 presos que ontem viraram brasa e carvão numa cadeia de Honduras? Se o incêndio tivesse sido num canil teria causado muito mais comoção no mundo. Viva os cães!!!
O preso é um sujeito onde cada um de nós deposita todos os nossos impulsos criminosos e nossas misérias latentes ou sublimadas. Que fique lá como um verme ou que morra queimado, isto nos dá a sensação de que ficamos mais limpos e mais honestos... Só que, como nossos impulsos criminosos e antissociais não têm fim, quando uma cadeia arde precisamos logo em seguida edificar outra e mais outra para voltarmos a enjaular lá os depositários de nossas anomalias e a hiena famigerada que nos atormenta.
Observem como normalmente o transgressor, o assassino, o bandido comete seu crime movido por alguma paixão incontrolável e desvairada, por alguma fantasia aterradora, por um mal entendido que traz ainda do berço, por alguma necessidade ainda de seus bisavós ou mesmo por algum transtorno de personalidade. Pelo contrário, o Estado que irá julgá-lo, com sua polícia, seus juízes, seus promotores, planeja e premedita todo o ritual com a maior frieza e até mesmo sadismo e por fim sentencia: 100 anos de prisão! Qual crime é mais abominável??? Nada é mais terrível que a cadeia... pelo menos deveriam oferecer ao condenado a alternativa de uma ou duas cápsulas de estricnina. Não lhes parece que o ato seria muito mais ético e bem menos vingativo? Além disso, nossas prisões são mil vezes piores que o inferno de Dante. Quem ainda se lembra das memórias de Dostoievsky sobre seus cinco anos nos campos da Sibéria, pode comparar e ver que as penitenciárias latino-americanas são muito piores que aqueles gulags. "Mas a tristeza tornava-se ainda maior quando, sobre o branco e interminável sudário da neve, brilhava o sol", escrevia aquele epiléptico genial, autor de Crime e Castigo.

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