"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O bom senso e a auto crítica continuam sendo idéias vãs...


Duas curiosidades ou mais bem duas perversidades estão ficando cada dia mais visíveis, bizarras e intoleráveis na mídia nacional: primeiro, a mutação desordenada da MÍDIA POLICIALESCA, essa que passou a ser mais "monarquista que o rei" e que indiretamente quer governar os municípios, os estados e o próprio país através da escuta, da bisbilhotice, da investigação, da alcaguetagem, do intimidamento, do "dedo duro" e da denúncia daquilo que lhe parece inconveniente, politicamente incorreto ou fora de lugar e fora da Lei. Segundo, a MÍDIA COMPADRESCA, aquela que não faz outra coisa além da promoção mútua e da queimação de incenso aos apadrinhados. O âncora tal entrevista a atriz tal que por sua vez divulgará seu livro no próximo show. Eu te convido em meu programa hoje e você me convida no teu amanhã. Eu te promovo agora e tu me recomendas depois. Te elogio em público e queimas incenso nos camarins em minha homenagem. Te coloco em cena na sexta e divulgas o meu trabalho no sábado. Afirmo no domingo que és um gênio e me citas na terça como um exemplo de talento. Uma neurótica promove descaradamente uma amiga histérica e vice versa num gingado cujos movimentos até para os leigos lembram a dança de San Guido. Um semi alfabetizado elogia um doutor, o doutor lhe retribui com uma nova concessão! Te elejo a mais sensual e me reconheces como o mais másculo. Conto aos rebanhos tua história cheia de heroísmo e registras a minha nos anais secretos e nas odisseias. Disfarçadamente te ajudo a vender discos ou roupas e tu, disfarçadamente, turbinas a minha audiência. Publico teu artigo na primeira página e sem que alguém suspeite de nossas intimidades tu me reservas uma entrevista para antes da meia noite. Escrevo tua biografia e tu divulgas que estou estudando em Harvard. Exibes minha mansão num horário "nobre" e eu, de maneira sutil, entre uma novela e outra, faço propaganda de teu jatinho. Me consegues uma nova editora e eu, com meu prestígio, te garanto uma novo contrato de publicidade. Fazes um comentário “espontâneo” sobre meu colar de diamantes e eu denuncio “espontaneamente” teu vestido de doze mil dólares. Te apresento hoje a noite à chefe da TV X e me recomendas amanhã a tarde à dona da Revista Y. Mando alguém filmar-te numa ilha grega neste verão e tu me retribuis a gentileza mandando teus repórteres a Londres no próximo inverno para fotografarem-me cheia de bolsas na porta do Harrod’s. Concedo-te cinco minutos no meu programa para divulgação de teu filme porque já acordamos que num horário nobre mencionarás o suposto "profissionalismo" e a suposta "competência" de minha equipe. Um fanfarrão deixa escapar "acidentalmente" o valor de seu faturamento salarial e o outro finge constranger-se pelo seu ser de "apenas" 680 mil mensais e no outro dia os dois aparecem juntos com crianças subnutridas no colo, ou doando casas para miseráveis, ou jogando notas para indigentes, ou encabeçando campanhas para combater a fome da Etiópia ou o nosso câncer social etc. Tudo falso, tudo mesquinho, tudo mentiroso! Uma bagaceira inconsequente e sem fim beneficiada por um Estado caótico e de merda! Uma cambada de narcisistas e de malandrinhos sem legitimidade esnobando da miséria instituída, lambendo-se, esfregando-se e exibindo-se sem freios entre si e, pior, para uma plebe lastimável que ainda não aprendeu sequer a distinguir o vermelho do preto.

- Quê fazer? perguntei ao meu mentor.

- Como não há solução - respondeu-me ele - só nos resta seguir fazendo o que Mark Twan fez durante toda sua vida: ir juntando provas contra a maldita raça humana.

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