"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Escrever, apenas para driblar a burocracia da existência...


I. Acaba de ser publicada mais uma pesquisa sobre o “perfil” do homem que “bate em mulher”. Mesmo sendo igualmente importante até hoje não vi ninguém mencionar o “perfil” da “mulher que apanha”. Apesar das conclusões simplórias da mídia e da polícia sobre essa violência, devemos lembrar que é o significado sórdido da vida e a burocracia da existência – como dizia J. Conrad – que leva as pessoas à loucura, ao desespero e ao absurdo...


II. Quinze minutos assistindo o Programa da Hebe ontem à noite foram suficientes para causar-me uma insônia severa. A entrada do padre Marcelo em cena foi o ponto alto do descalabro. Não consegui evitar uma espécie de angústia irônica ao ver aquele “servo de Deus” embalando a plateia de anciãs com suas canções quase dementes enquanto a apresentadora não sabia se caia de joelhos ou se entoava uma Salve Rainha. Eis aí o que alguém já chamou de cultura letal.


III. Se na semana passada foram os adultos e os adolescentes que lançaram-se entorpecidos e em rebanhos para cultuar seus roqueiros, agora são as crianças e pré-adolescentes meio perdidas e meio desiquilibradas que se aglomeram em frente os hotéis e em estádios para ver o seu petit ídolo. Qualquer educador corajoso tem a obrigação de ficar encolerizado e desolado com esse cenário. Ver aquelas pobres crianças praticamente ainda com fraldas e que não sabem nem limpar-se a bunda tendo surtos histéricos por um pequeno herói imaginário e ainda por cima atiçadas por suas mães me pareceu uma irresponsabilidade caprina e uma burrice monstruosa. São crianças submetidas a esse e a outros tipos semelhantes de besteiras que mais tarde, como adultos, precisarão cultuar todo e qualquer tipo de cafajeste que, no meio de uma névoa mítica, se empoleirar num púlpito.


IV. Com a tola piada de (que comeria uma mulher grávida e seu bebê) o nome do tal “rafinha” tem marcado presença até nas discussões semi-acadêmicas e principalmente lá no meio das multidões silenciosas. Claro que uma nação de homens ocos e que se deixa adestrar passivamente pela mídia está fadada a eternizar a mesmice e a mediocridade mas, convenhamos, a indignação popular e oficial com relação a essa piada é uma bobagem das maiores e uma encenação hipócrita e descabida, pois todo mundo sabe que nas beiradas de nossos estradões e na penumbra de nossos bordéis existem centenas de mulheres grávidas que, juntamente com seus filhos, por uma questão de sobrevivência, se deixam “comer” (de verdade) diariamente. E ninguém, absolutamente ninguém se incomoda... Prestem atenção como são exatamente esses tipos de falsos moralistas que vão construir prédios e shoppings sobre lixões...


V. A medicina está em débito com Steve Jobs. Apesar de toda a mistificação e de todos os milionários negócios médicos, por enquanto se continua curando apenas o "curável". Quando é que se passará a curar o incurável?

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