"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Até as simplórias margaridas querem o PODER!!!


Para ir ver a Marcha das Margaridas descendo pela Esplanada dos Ministérios acordei de madrugada, entusiasmado e bem antes do sabiá de minha quadra começar a infernizar o mundo com seu canto sem razão. A imagem realmente estava deslumbrante. É raro ver tantas mulheres juntas por uma mesma causa. A animadora gritava de cima de um caminhão que eram 100 mil, mas os especialistas, em solo, não apostavam em mais de 50. Cem ou cinquenta já era uma boa performance das Ongs, dos sindicatos e dos partidos que bancaram a festa. Instalei-me lá sobre o esqueleto de concreto da rodoviária e fiquei até excitado ao ver aquelas senhoras marchando, cada uma com suas reivindicações visíveis sobre os ombros e sobre as ancas. Pediam basicamente Igualdade de Direitos, terra, trabalho, segurança, direito de abortar, de serem livres e de acesso ao poder. Em outras palavras: exigiam o impossível! Quando uma delas gritou ao microfone: As mulheres querem poder!, o mendigo da rodoviária que estava ao meu lado cochichou: Deviam mesmo é querer phoder! Me emociono com minhas memórias ali diante daquela manifestação com tanta aparência de ato revolucionário, mas foi só por uns momentos, pois o mendigo me preveniu: poupe suas lágrimas, pois esta é uma marcha chapa branca. Não percebes que até agora só fizeram elogios ao governo? Marcha a favor do governo? Que porra é essa? Só vi uma até hoje, e foi aquela das mulheres católicas dos anos 60 em defesa da pátria, dos milicos, da família e de Deus.

As manifestantes, de todas as idades, vão passando em blocos, sorridentes, alegres, maliciosas, simplórias, confiantes, mães volúveis e ingênuas, todas com seus chapéus de palha, longe da tirania de seus maridos, filhos, confessores e agregados, bem como de suas cozinhas e tanques odiosos. Em algumas a marca da burguesia, em outras os sinais do veneno do latifundio e da pobreza, e em todas os estigmas da cruz. Há mulheres da selva, da roça, do mundo urbano e suburbano, garimpeiras, índias, intelectuais, domesticas, estudantes, semifreiras, burocratas, acadêmicas e talvez até alguma pistoleira.

- Cem mil mulheres nesta que é a passeata maior do país e do mundo! Grita outra mulher sobre um carro do sindicato. O mendigo indignado e tomado por um surto de misoginia volta a resmungar: Se mentem assim agora, imagine como será quando estiverem no poder.

A multidão avança, passa em frente à fileira de ministérios sombrios com a mesma reverência com que passaria diante de catedrais fechadas ignorando ou fingindo ignorar que dentro de cada um há latente ou em plena atividade uma máfia.

-Somos uma classe trabalhadora que tem sexo! Ecoa pelos alto falantes. Essa frase me confunde. Será que alguém havia desconfiado do contrário? Queremos isto! Queremos aquilo! Basta disso! Basta daquilo! Marcham soberbas em direção ao Congresso Nacional onde os discursantes de plantão já estão a postos e com os mesmos discursos dos anos 60 fazem campanha para os próximos rounds da putaria nacional. A voz dos padres e das beatas são inconfundíveis. Os vivaldinos se elogiam mutuamente e tanto por uma questão de estratégia como de pedagogia de massas satanizam alguns, apenas alguns, dos antigos coronéis que ainda infestam e mandam no país. Tudo para inglês ver! Pedem até uma faxina em alguns dos tantos guetos recheados de corruptos! Dirigem-se à Presidente da República com intimidade e como se ela fosse uma espécie de Irmã Dulce da Bahia ou uma Madre Tereza de Calcutá. O sol arde. A umidade deve estar como ontem, pior que a do deserto de Merzouga. Admito que os Filhos de Jeová podem estar certos com a hipótese de que a terra ainda se transformará e acabará numa bola de fogo. Algumas velhinhas desmaiam. Água! Muita água! Sim, mas ir mijar aonde? São quase doze horas, como hoje é quarta-feira o Congresso deve estar com lotação completa. Se ao invés de uma margarida no chapéu essas senhoras trouxessem uma afiada machadinha sob as saias – comenta novamente o mendigo – poderiam aproveitar para subir a rampa, pular janelas e vidraças a dentro e não poupar nada nem ninguém. Lástima grande que não esteja sendo assim!!! Para mim esta quarta-feira ficará registrada como o maior de todos os vacilos históricos...

Como percebeu meu desagrado com sua exagerada impertinência, pegou a bengala e se retirou, mas antes lançou no ar esta queixa: Acho uma idiotice seguir querendo fundar o duradouro sobre o transitório...

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