"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

DOAR LIVROS OU IR PARA A CADEIA???

Daqui uns quinhentos anos, quando as luzes da ribalta já tiverem sido apagadas e os historiadores tiverem a intenção de levantar o mapa de nossos mais insólitos desvarios, principalmente nas questões de lógica jurídica, terão dificuldades imensas e não encontrarão elementos suficientes para tal a não ser nos tratados de psicopatologia cultural. Na cidade de São Carlos/SP - por exemplo - recentemente a Justiça determinou que suspeitos de cometerem crimes "leves", cuja punição não excede a dois anos e cujo transgressor ainda não tenha antecedentes criminais, podem optar entre submeterem-se a um processo mil vezes pior que o de Kafka e depois irem para uma de nossas cadeias imundas e medievais ou simplesmente doarem livros às bibliotecas do Município. Que tal? De todas as funções mistico-esotericas-religiosas e emburrecedoras que os livros já vêm desempenhando em nosso país, esta é inédita. Agora, não pensem que a tarefa será fácil para o condenado, por um lado porque são inúmeras as histórias de bibliotecas particulares inteiras que vão parar no lixo porque as bibliotecas públicas não se interessam por elas, e segundo, porque o "condenado" terá dificuldade, primeiro, em encontrar bibliotecas em seu município, e segundo, em encontrar uma que esteja realmente funcionando.

Além disso, se o condenado não tiver uma boa reserva econômica, já que os livros no Brasil custam mil vezes mais do que valem, ficará rapidamente arruinado. A pessoa que me enviou a notícia desse disparate estava curiosa em saber se a tal LEI estabelece que tipo de livros devem ser doados. Será que podem ser tanto os do Paulo Coelho como os do Sarney, como o recentemente publicado pelo Palloci ou pela Xuxa? Ou deve-se pensar em Montesquieu? Em Voltaire? Em Bernad Shaw? Em Shopenhauer? Em Samuel Rawet? Em João do Rio? Em Emil Michel Cioran, ou em outros da mesma estirpe?

Diante desse impasse, o velho William Blake voltaria a resmungar aquele singela frase que se encontra lá em seus Provérbios do Inferno: "Prisões se constroem com pedras da Lei, Bordéis com os tijolos da religião.


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