"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 26 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) VIII

... Ao invés de Caim e Abel poderiam ter dito: Rômulo e Remo; Castor e Polux, Prometeu e Epimeteu ou dezenas de outras duplas que ensanguentaram a história. Os irmãos Ivan e Aliosha não se mataram entre eles, mas, pior, uniram-se para assassinar o velho Karamazov. As vezes me pergunto o que teria acontecido se Caim e Abel tivessem dado um fim em Adão? Se ao invés do fratricídio tivesse acontecido o parricídio? Nos anos subsequentes as professoras e as devotas do entorno voltariam a referir-se a Caim como o precursor do cassetete, aquele que não era apenas a metáfora mais popular do mal, mas também do fracasso da família e de sua pretensão de educar. O homem que havia tornado a vida dos terráqueos mais confusa e problemática e o responsável pelas brigas nos bares, pelos porres dominicais, as desavenças entre irmãos, entre vizinhos, entre pais e filhos por um cache-col ou por um grostoli. Também pelos tiroteios entre jagunços, o sacrifício semanal de galinhas, as glebas de terras ensanguentadas e os títulos falsos do governo Lupión cheios de selos e carimbos.

Um pôster da Virgem Maria na sala principal e um de santos em cada quarto. Sobre a minha cama – que muitas manhãs de inverno amanhecia mijada – havia um anjo da guarda afeminado passeando abobalhado pelos prados do paraíso celeste. As brigas por herança, as infidelidades, a negligência com os velhos, a wingester atrás da porta do quarto paterno, a crueldade com os animais, as vacas com brucelose, os pinhões na chapa, a usura, a pose dos que eram um pouco mais abonados e a lassidão dos vagabundos passeando em seus cavalos que, para mim, eram todos clones do famoso Bucéfalo de Alexandre. A organização daquele germe de acrópole, o desenho das casas e as cores de suas paredes, tudo me parecia uma simplória afronta à modernidade que já explodia em outros cantos do mundo. A mesmice das cozinhas, das privadas, (1) dos oratórios, do tanque, das frases e das crenças, tudo remetia, por uma via ou por outra, ao crime anedótico de Caim. A lenda esdrúxula desses dois fantoches bíblicos passou a fazer parte, aberta ou sutilmente, de quase tudo. Se o pároco falava nela todos os domingos e se estava lá no Gênesis, - palavra que ninguém sabia verdadeiramente o que queria dizer - por que não haveria de estar também nos livretos didáticos e nos calendários dependurados atrás das portas, com o primeiro sendo sempre execrado e o segundo idealizado? Lembro que me incomodava o fato de todas aquelas lendas e todos aqueles crimes fantásticos terem sido sempre escritos e contados por Deus ou por seus mensageiros. Algo naquela criança gostaria de ouvir a versão dos fatos também da boca de Lúcifer, de Belzebu ou de Satanás. Mas não havia a menor possibilidade. A rezadeira sórdida de todos os dias endereçada aos santos e ao papa fazia lembrar a velha de Siracusa que orava pela longa vida de um tirano da época, com medo de que a este pudesse suceder o diabo... (pp. 58, 59)



(1) Não esqueço que Domnique Laporte escreveu “a privada, esse lugar repugnante onde cada um faz silenciosamente seus pequenos afazeres, esfregando-se as mãos é literalmente o lugar da acumulação primitiva, pequena taça de merda.” Naquele vilarejo ítalo-germânico - como ainda em muitos pelo Brasil a fora - a privada era uma casinha separada de onde se comia e se dormia. Algumas tinham apenas um buraco redondo sobre a fossa, onde o usuário se colocava de cócoras e ficava ouvindo o barulho da chegada dos dejetos lá no fundo escuro e tenebroso da fossa. Outras, - inclusive a de minha casa - já tinham uma espécie de cadeira de madeira, onde o conforto era bem maior. Como ainda não havia papel higiênico, cada pessoa levava consigo umas folhas de jornal que, depois de usadas, eram amontoadas num canto do ambiente e onde sempre havia moscas rondando aquele subproduto demasiadamente humano. Só bem mais tarde, com o modernismo, e foram os ingleses a inventarem a privada moderna, foi que o Estado, usando parte dos impostos, planejou e conseguiu canalizar toda aquele imundície para uma espécie de cloaca central.

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