"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 9 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) VI

...Em quase todas as novelas e contos famosos, os escritores por astúcia e malandragem colocam uma misteriosa camareira da Martinica, do Marrocos ou do Alentejo. A minha, com seus 28 anos, elegante e de riso malicioso é do Leste europeu e sobe todos os dias as 13:30 em ponto para dar uma geral neste quartinho que mais se parece a uma cela de Guantánamo. Vem com toda a parafernália da modernidade para, no menor tempo possível, deixar o ambiente kleen e perfumado. Hoje, enquanto ela estendia os lençóis rocei acidentalmente em seu traseiro. Ela ficou enrubescida, mas imóvel. Não sei se na expectativa de que eu levantasse seu avental, lambesse seu pescoço e lhe metesse a pica, ou apenas esperando que eu repetisse a impertinência para ter mais elementos para acusar-me de acosso sexual ou mesmo de estupro. Recentemente meteram o cara do Wikileaks e até o Presidente do FMI na cadeia por motivos semelhantes. As fraudes nesse assunto são cada dia mais descaradas e as mulheres, ontem idealizadas e quase santas estão cada dia mais seduzidas pelo submundo e pela delinquência. Enquanto a demi-frigidez feminina lhes dá uma boa soberania sobre seu corpo, o homem, tarado e libidinoso está sempre de joelhos mendigando e implorando que uma dessas loucas o deixe penetrá-la. Um dia ainda pretendo fazer pelo menos um ensaio sobre a heterofobia generalizada no mundo, mas isto não será para agora. Reprimi minhas fantasias primitivas, calibrei minha câmera, ofereci-lhe umas sementes de girassol e desci as escadarias vitorianas e íngremes com todo o cuidado para, de repente, não deslocar-me um quadril ou quebrar-me o pescoço.

Pode não ser o programa mais interessante do mundo, mas dar umas voltas pelos prédios em construção aqui da urbe no horário do almoço, nos proporciona o espetáculo proletário da peãozada toda uniformizada e sentada nas calçadas ou nos andaimes palitando os dentes e fazendo a sesta. Se poderia dizer que na essência, é uma imagem não apenas pré Marx, mas até mesmo pré Heráclito. Chegam de vários lugares do mundo, principalmente dos países fodidos dos arredores e do leste europeu para negociar seu sangue e suor por um punhado de libras. Neste particular Judas Iscariotis foi mais nocivo e astuto, entre o trabalho e a delação apostou nesta última. Estão sempre assoviando ou cantarolando alguma canção de seus países tentando dar um clima de normalidade a essa escravidão. Muitas vezes são experiências banais como esta que – como dizia Camus em seu Mito de Sísifo – nos revelam (ou nos fazem relembrar) o absurdo fundamental de nossa condição cainesca... (p. 47)


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