"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) III

...Bem lembrado!, pensei. Bocage também fora um Caim reencarnado e muito mais! Caim pau pra toda obra, um ser híbrido, o horror e o fascínio condensados. Caim cheirador de cocaína, dançador de tango, hippie pelas nevascas do Himalaia, louco numa casa de orates ou atrás de um avental branco realizando um estupro ou uma extorsão. Caim horticultor, gestor do ciganismo, inventor do tacape. Caim menino de rua, cu sujo, aspirador de cola, dono de tripas vazias. Caim ladrão, Caim DAS5, Caim pulha e autêntico gabiru. Caim de joelhos na catedral da esquina com a língua para fora onde outro Caim depositará a circunferência branca da hóstia. Caim louco por tetas e por xotas, Caim comerciante, Caim nos ministérios, Caim brasão da família, ladrão de gravatas, líder sindical, vampiro do leste europeu, avô de Herodes, glutão, pai da burrice insondável e galopante. Caim tio de Diógenes! Caim inspirador do barroco de Aleijadinho, foi sob sua influência que o escultor mineiro cravou sete espadas no peito de Nossa Senhora das Dores. Caim pivô da Perestróica oculto na estátua da liberdade e no concreto do Cristo Redentor! Caim quinta maravilha do mundo, arquiteto do Taj Mahal, amante de Madalena, Caim de calcinhas transparentes, aquela que tem sido o pivô de todas as insônias. Caim cão adestrado! Caim de meias calças na porta dos hotéis e nos porões lá do Conic e aqui dos puteiros do Soho. Caim pretensioso, empedernido, hálito de cadáver! Caim no exílio como águia extraviada, franco-atirador, asno endogâmico! Caim herói da farraparia, lança-torpedos! Candidato em todas as eleições! Caim cagando nas águas do Rio São Francisco, mijando ali no Tamisa e vomitando nas do Ganges! Caim Mercúrio, o Deus mensageiro, padroeiro dos ladrões e dos jogadores! Caim bouquinista nas ruas de Paris, cigano em Valência, usureiro em Nova Iorque, drogado em Amsterdam, sofista na Grécia, iogue nos templos de Bombaim. Caim Hércules que mata os filhos e que está nos olhos do Pensador de Rodin, Caim incorporado em Gildamesh (o herói máximo da Mesopotâmia), Caim sob a máscara de Teseu, entre os Cavaleiros da Távola Redonda e até mesmo do espadachim Cego dos nipônicos. Caim bookmaker aqui em Londres, pugilista no México, barman em Nova Déli e puta de todos os bas-fonds, cuja marca seria identificada pela presença de uma energia especial, aquela que só os bruxos e os xamãs conhecem. Caim em Katmandu querendo vender-me uma faca, na Tailândia por detrás do Buda de Ouro, na Ilha de Creta mantendo vivo o desejo do Minotauro. Caim no meio das tetas das artesãs indianas, no fundo do lago de Puskar, numa loja de tapetes no Bazar de Istambul, nos porões das pirâmides do Cairo... Não adianta, somos dois em um e um em dois. Caim meu descarado alter-ego!

E foi Caim quem derrotou Don Sebastião na Batalha de Alcácer-quibir, na África em 1578 e foi ele também, por ironia que, para iludir aos portugueses, instituiu o Sebastianismo. Caim no sertão do Cariri vendendo pedras de isqueiro, baralhos, carretéis de linha, fotos de Frei Damião e foices sem cabo sob os umbrais da Igreja de São Francisco. Um dia ali, outro na frente da Igreja Batista Regular e outro no interior da Igreja das dores. Nunca imaginei encontrar Caim travestido de alfaiate, dono de um empório, sapateiro ou indigente, com os cotovelos apoiados na janela do casarão que pertenceu ao Padre Cícero. Caim esteve também lá na Chapada do Araripe há 115 mil anos fotografando as minas de gipsita ou registrando a metamorfose dos celacantos em anfíbios e répteis. Ficou entusiasmado com os corvos planando sobre o chapadão como se fossem verdadeiros pterossauros e mais ainda com as libélulas incrustadas na pedra Cariry... Todas essas errâncias e todas essas vagabundagens me chegam de forma inesperada aqui num café londrino a menos de um quilômetro da antiga casa de Freud. Freud Caim! Caim psicanalisado. Uma bruxa o ajudou a ressignificar seu crime. Fim da análise: matar não é crime! Caim como o anti-édipo. Caim dando aulas para Vinnicott e para Melanie Klein. As memórias e os cheiros me arrastam de volta para o sertão e para a caatinga com seus espinhos e com sua violência nata. Caim, cão do mato, fiel escudeiro do velho Conselheiro, com sua verve contra os canhões republicanos. Caim descendo o Rio São Francisco a nado e matando bicho-barbeiro na unha. Plantador de maconha, remeiro, dono de todas as casas de luz-vermelha da margem esquerda... (pp.79, 80)

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