"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

E o mundo segue comandado por seus mortos...


Dos cento e tantos cemitérios que há em Londres sete são considerados mais importantes, o Highgate, onde está Karl Marx, é um deles, o de Bunhil Fields, que guarda as ossadas de William Blake e de Daniel Defoe, o Kensal Green e o de Brompton, com seus corvos etc. Tenho em meu “Curriculum” os registros dos cemitérios gregos, dos chineses, dos de Buenos Aires, México, Paris, o judeu de Praga, o Kerepeto Temeto de Budapeste, os de Roma, os lusitanos, o de Veneza, na ilha onde jazem sem remédio e sem chances de ressurreição as cinzas de Ezra Pound. Conheço o de Goiás Velho onde foi depositado o féretro de Cora Coralina, os de São Paulo, os de animais de Brasília, os de Tanger, onde está o corpo maldito de Jean Genet, os de Barbacena, onde fotografei até caveiras fora das tumbas. Os do Nepal, os do sertão do Cariri, os crematórios de Benares, Macau, Hong Kong, os de Madri e Barcelona, o de Havana etc., etc. Sempre que me perguntam quê obsessão é essa, eu os engano mencionando um suposto interesse pela "arte mortuária" ou outras bobagens da dita pósmodernidade. Claro que não tem nada a ver. Interesse pela arte porra nenhuma! Estou apenas tentando acalmar minha curiosidade e minha ansiedade com relação a esse trágico destino e, quem sabe, encontrar elementos para inventar a minha ars moriendi. Mas já sei que não há chances! Apesar de todos os truques físicos e metafísicos engendrados pela cultura para tentar negá-la e ocultá-la, a morte continua sendo a maior de todas as sacanagens que a existência armou em nossa estrada, tanto na dos homens como na dos ratos, dos cachorros, dos percevejos. Morrer e apodrecer é um horror, uma nojeira inqualificável. E não há mentira ou promessa que console os condenados à morte. A hipótese de um Deus ou de outra vida - por exemplo - além de cabotina e descarada agrava ainda mais essa desgraça. Se existisse um arquiteto ou um responsável por essa história toda, é bem provável que seria chicoteado, apedrejado e decapitado pelo populacho. Ou não? No Cemitério de Brompson, os corvos dão um aspecto ainda mais macabro ao ambiente. Voam famintos de tumba em tumba em busca de uma migalha qualquer de osso ou de pele. No Highgate, como já lhes disse, está a tumba de Marx. Paradoxalmente, só ali ele conseguiu livrar-se para sempre dos furúnculos que o atormentaram por toda a vida. A cripta de Alexandre Fleming (o da penicilina) está na Catedral de São Paulo; Tomas Morus (o da Utopia) está na Torre de Londres; na Abadia de Westminster estão Charles Dickens, Lewis Carrol, Rudyard Kipling etc; Peter Sellers (o cômico) está no Golders Green Crematorium. Ali também estão as cinzas de Freud depositadas no interior de um vaso grego e também as da bailarina Anna Pavlova. Michael Faraday (o da eletricidade) está no The West Cemitery; William Hogarth (o pintor) repousa no Chiswick Old Cemetery e no Kensal Green existe um monumento para a Princesa Sophia. O grande Charles Chaplin Senior (music-hall) está no Lambeth Cemetery & Crematorium. O linguista e errante Sir Richard Burton está no St Mary Magdalen’s, Mortlake; Jack Williams (o socialista) aguarda pela revolução no Walthamstow Cemetery. O banqueiro Nathan Meyer Rothschild (esse sim pode considerar-se um vencedor) está no Brady Street Cemetery. Thomas Crapper (o inventor da toalete moderna) descansa no Becknham Crematotium & Cementery, e Anna Sabatini (a música) tem um monumento no Sutton Cemetery. Se este guía lhe servir para alguma coisa aproveite e boa viagem, no duplo sentido. (25 de maio de 2011, Cemitério de Kensal green)

5 comentários:

  1. Ezio, no seu contexto de morte, ainda não li sua opinião, sobre os corpos incorrptos de santos e outros que se mantem milagrosamente intactos desafiando todas as leis da natureza. Corpos como o de São Vicente de Paula a 400 anos morto e repousa em sua cripta como se estivesse apenas dormindo e o mais notável de todos o de Santa Bernadete, que pelas suas veias ainda corre sangue líquido assim como estivesse viva, apesar de sua morte ter acontecido ha 150 anos atrás. Quero uma opinião sua na sua visão Marxista e Nietzschena da vida, sim quero; que vc saida desta posição de deus onipotente aqui no blog e responda aos posts relevantes de seus leitores, assim como lhe interessa ler(como esta lendo agora) estes posts que estes mesmos postam aqui.

    Jannsen Justa

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  2. É impressionante como o Bazzo ama a vida!!!!! Sua fixação pelos cemitérios deve ser uma forma de advertência interna de que ela, a vida, não durará para sempre, pelo menos nesta forma física, e toda esta revolta demonstrada no texto deve ser proveniente da crença de que não exista nada além do mundo físico, do mundo manifesto neste plano.

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  3. Morte é mesmo um absurdo. "todo esse investimento" pra nada....

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  4. Nada some, tudo no mundo se transforma... Uma reciclagem natural de toda a matéria que há no universo...

    Qual a diferença da carne humana que alimenta os corvos, da carne do boi(porco, frango, peixe...) que nos alimenta?

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  5. Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.

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