"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 14 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 7


O mundo misterioso, veloz e subterrâneo do metrô parece uma toca de cupins. Junção de labirintos que se sobrepõem e que se entrecruzam numa loucura para claustrofóbico nenhum se queixar.  Somando minhas idas e vindas nos trens da linha amarela, azul, verde, vermelha etc., devo ter dado a volta ao planeta umas quatro vezes nestes dias que estou por aqui. Não necessariamente por que as estações sejam distantes umas das outras, mas por meus vacilos, minhas distrações e por minha preguiça de ficar babacamente decifrando os velhos mapas. As vezes saio da Estação de Belgravia – por exemplo -  para ir a Holborn, inicio a leitura de um parágrafo das Viagens de Gulliver e quando me dou conta já estou em Barnsbury. Caralho! Outras vezes quero apenas ir até ali no Hyde Park Corner, tomo o trem aqui em Paddington, vejo duas ou três páginas de um jornal e quando caio na real cheguei em Barbican. E para voltar? Não é simplesmente saltar de um, passar para o outro lado da linha e tomar outro. Não, a coisa não é bem assim, tem mil escadas, várias plataformas e mil complicações no meio do caminho, isto, sem falar dos milhares e milhares de sujeitos que correm de um lado para outro como ratos e daqueles que, como você, está indo e vindo desamparado com um mapa incompreensível entre os dedos... Às vezes ao tentar voltar para Hyde Park Corner que era o destino inicial, posso, por distração, como já aconteceu, acabar em Highgate. Highgate? Casualmente lembro que é no cemitério dali que Karl Marx está enterrado e então fico por ali mesmo, fotografo a tumba, descubro um café, observo uma velhinha regando uma magnólia, entro numa livraria, compro um livro de John Casey intitulado: After lives: a guide to heaven, hell, & purgatory.  Dou um tempo numa loja de violinos onde compro uma partitura por 4 libras e fico na área até o anoitecer... Nossas avós não diziam que há males que vêm para bem? Mas voltando à Torre de Babel que é o metrô londrino, outro complicador aparece quando você vai pedir uma informação aos funcionários que, apesar de sempre gentis monarquistas, falam Plataform como se estivessem chupando uma pica. Por mais que tenha me esforçado só consigo escutar plafon. Plafon 2, plafon 6. Plafon 4. Plafon um caralho! É plataform!!! Algumas estações são tão profundas que se pifar as usinas geradoras de energia ou se a rainha, pela razão que for, mandar desligar aquela merda toda, demoraríamos anos para escalar novamente aqueles abismos... Em algumas delas desce-se vertiginosamente por um elevador, numa gigantesca caixa de aço com duas portas potentes que se abrem e fecham quando bem entendem. Claro que é preciso ter fé para não sucumbir a alguma fobia e para não desesperar-se. Não fé num deus fictício, evidentemente, mas fé no homem, na máquina, no cérebro de um proletário weberiano que ganha umas duas mil libras por mês... As vezes, quando não tenho nada específico para fazer ou já enchi o saco de tanta cultura, entro na primeira estação que avisto e no primeiro trem que aparece. Se é da North Line, da Metropolitan, direção Victoria, Piccadilly etc, não faz a mínima diferença. Fecho os olhos e até durmo com o balanço e com o barulho das rodas sobre os trilhos. Às vezes, é verdade, me irrita a gravação chata que informa: next station Fulana de tal. Next station Cicrana de tal... Os ingleses e os europeus em geral (com exceção dos italianos) viajam em silêncio, mas os negros, os árabes, os indianos e etc vão batendo papos intermináveis e num tom bem acima de 70 decibéis. As vezes, no meio de um cochilo quando ouço por acaso a gravação falar em mudança de trem, salto como todo mundo e saio do underground para a superfície. Seja a estação que for, que beleza! O sol meio caribenho deste mês de maio e ao mesmo tempo uma brisa fria que nos espera em cada uma das sombras dos edifícios ou dos monumentos... Dezenas de ruas para percorrer a pé, devagar, pronto para fotografar uma cena que jamais se repetirá e alheio a todos os protocolos do mundo. Numa dessas saídas ao acaso, saí em Camden Town e seus mercados. Que maravilha! Tudo o que os jovens hippies dos anos 60 sonharam parece estar montado ali numa espécie de medina monárquica e hipercapitalista. Só não senti mesmo foi o cheiro forte da cannabis daqueles tempos... As ruas cheias como se fosse sempre domingo ou feriado. Para o Primeiro Mundo será que não é? Bem que os políticos latino americanos poderiam incluir em suas campanhas demagógicas uma nova frase mais ou menos assim: Prometo lutar para transformar a América Latina inteira, do Brasil ao Panamá, numa imensa Inglaterra!!! Não seria o anarquismo idealizado de Proudhon, mas já seria o máximo... E por falar em Proudhon não podemos esquecer que, curiosamente, esta monarquia deu abrigo a todo tipo de revolucionário, pseudo-revolucionário e refugiados de guerra do mundo inteiro. Até o Gil e o Caetano ficaram exilados aqui. Fico tentando imaginar, com aqueles músculos e com aquelas idéias, em que é que essa dupla poderia ameaçar os milicos da ditadura... London, London!!!
 Meninas, mulheres e senhoras de todas as cores desfilam perfumadas olhando de soslaio para todos os lados, as mais jovens sempre com aquelas meias pretas enfiadas propositadamente na xota e uma sainha minúscula fingindo cair por sobre tudo...Sempre que ouvires alguém dizer que os ingleses estão em crise econômica e que estão psicologicamente mal, saiba que é blefe. Estão bem, muito bem, saudáveis e sorridentes, não se estressam por nada, só não digo “felizes” para não ser reacionário e nem ridículo.

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