"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 29 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 14

Tentei ir conferir as “finanças” no Banco do Brasil aqui na 34 King Street EC2, mas encontrei um prédio fechado, ainda com o letreiro na parede, com poeira, vestígios de teias de aranha e correspondências enfiadas por uma fenda, o que simboliza bem, dois terços de nuestra pátria e lhe dá um ar genuíno e francksteniano de abandono. Com o reinado do Lula devem ter se mudado para um endereço mais nobre e mais próximo ao Palácio de Buckingham.

Agora que todo mundo anda por aí com seus fones enfiados nos timpanos, com seus óculos escuros e com burkas, começo a entender melhor aquelas três estatuetas asíáticas que sempre foram um enigma para mim: NÃO escuto, NÃO vejo e NÃO falo. Condição ideal para todos os governos, para todas as corporações e para todas as agremiações seja no mundo da política ou da fé, no mundo dos negócios ou no mundo das máfias. Orwel foi otimista e até ingênuo com suas previsões no livro 1984, pois o sistema sofisticado de repressão social e de controle do rebanho que já está montado e funcionando é muito mais avançado. O território onde reina a suposta “democracia”, a suposta “tolerância” e a suposta “liberdade” é rigorosamente demarcado. Imagine uma vaca no pasto, com um número nas ancas e um sininho no pescoço... Ali nesse pedaço de chão o populacho pode até ser feliz, basta que não anseie pelo impossível. Do lado de dentro do cercado as multidões podem pintar e bordar, gritar, encher a cara, optar por comprar queijo de cabra ou coalhada grega, atormentar-se mutuamente, fazer plástica, ouvir seus roqueiros preferidos, morder-se as carnes em público, ir cacarejar ideologias baratas no Hyde Park, ficar cantando os Beatles até os noventa anos, fumar seu baseado, ir ver a Troca das Armas e achar o máximo, vestir-se de boneca e ficar desfilando pela Oxford Street como uma débil mental, ler os anarquistas, ir ao Museo de Cêra abraçar-se a seu ídolo preferido, vestir-se de general alemão ou de Madame Pompidou, desfilar em seus brilhantes automóveis, ir novamente à Ópera, quantas vezes desejar, até encher o saco, para ouvir (ad eternum) as 4 Estações de Vivaldi. Pode ir, inclusive, se você já faz parte da Quarta Idade, jogar bingo no Shopping de Elephant & Castle, fotografar, comer à vontade, engordar, trepar, reproduzir-se igual ou até mais que os esquilos do Green Parque etc.,etc.,etc., mas, agora... se der um passo para fora desse território, se mijar fora do pênico ou se começar a berrar demais, se der prejuízo a um comerciante, a um banqueiro ou ao Estado... Ah... aí um braço sem nome e sem identidade lhe esmagará imediatamente os miolos e, mais, respaldado na LEI. Entendeu, my brother? E por falar em esmagar miolos, um dos lugares mais concorridos pela turistada às sextas-feiras é a Torre de Londres, antigo centro de tortura do Reino, uma casa de horrores medieval, possivelmente até inspiradora dos centros tupiniquins e latinoamericanos de tortura. Para ali eram levados os que discordassem das paixões e das decisões dos monarcas e, claro, de seus lacáios. As celas úmidas e o machado com que se cortava o pescoço dos discordantes devem causar um certo arrepio nos visitantes, ou não?

Você pode ir cinquenta vezes sózinho ao Restaurante do Mr. WU, ali na Shaftesbury Av., esquina com a Wardour street, que a chinesa que te recepciona vai te perguntar: lugares para quantas pessoas? Hoje, que já estou de malas prontas, que a cidade está um verdadeiro inferno, que as ruas estão iguais às da José Paulino na semana do dias das mães, que as torcidas de um time espanhol e as de um daqui estão gritando pelas ruas como verdadeiros débeis mentais, respondi-lhe cinicamente num idioma meio parecido ao mandarim que costumo inventar quando estou vagabundeando: moça, você não vê que estou acompanhado pelo Chico Xavier e pelo Allan Kardek? Ela, evidentemente, não entendeu o conteúdo, mas desconfiou da forma e me conduziu, como sempre e meio chateada – outra característica da casa – a um lugar em pleno sol. Porra, comida chinesa em pleno sol! Puxei meu mandarim novamente: moça, se eu quisesse almoçar ao sol teria ido passar férias no Ceará...

Um comentário:

  1. É mesmo "boom" os teus textos, sabe das coisas e tem esse humor bárbaro que desarranja os absurdos! Bj

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