"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O haraquiri e os limites de nossa permanência...

Meu correspondente no Japão enviou-me agora a tarde uma notícia de poucas linhas mencionando o caso do  homem de 102 anos que suicidou-se para não ter que sair de sua casinha situada no perímetro das usinas nucleares danificadas. Meu "informante" não sabia ainda qual o método usado pelo senhor para tirar-se a vida mas, por dedução e por tratar-se de um japonês daquela idade, achava que o harakiri (o suicídio ritual) teria sido o mais provável. 

Sempre que se fala em suicídio e em harakiri  vem logo a mente o famoso escritor Kimitake Hiratoka (conhecido por Yukio Mishima), autor de Cavalo Selvagem, O som das Ondas, O tempo do pavilhão dourado etc., etc., ele que em 1970 (nessa época o suicida de hoje estava com 61 anos), depois de invadir o Quartel General em Tóquio e ler um discurso em defesa do Imperador, do Japão e de suas tradições suicidou-se diante de uns mil homens.

Acompanhado por dois seguidores, Mishima terminou de ler seu manifesto patriótico, ajoelhou-se quase nu diante daquela "platéia" improvisada, gritou três vezes tenno heika banzai (longa vida ao imperador) e passou-se o punhal pela barriga como manda o código de honra dos samurais e, claro, foi para o beleléu. 

É curioso que o pretexto de seu suicídio há 41 anos atrás como o do velhinho de hoje, têm, na essência, não só as mesmas raízes, mas também as mesmas ramificações... Algo derivado do apego e do narcisismo, de um enraizamento exagerado, de uma paixão e de um amor fatal por um pedaço de terra, por um barraco e por um passado idilizado. Mishima reclamava a derrota na guerra, as bombas sobre Hiroshima e Nagazaki, o pisoteamento das tradições milenares e o risco da invasão da superficialidade ocidental em seu país. O suicida de hoje, ainda atordoado pelo tsunami, contrário e resistente às ordens do Estado, não quis abrir mão de seu lugar, preferiu a radiação e mesmo a morte a ter que recuar, abandonar sua aldeia, sua casa, suas raízes cravadas ali naquele terreno durante um século, terreno que, por fatalidade, como Hiroshima de outrora, agora também estava infectado pela futilidade radioativa... 

2 comentários:

  1. Porra Ézio,essa foi na mosca!

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  2. Eu discordo da sua analogia, por causa da idade do ancião. Se alguém tiver o privilégio de conviver ou cuidar de pessoas idosas sabe quais os motivos que levam um senhorzinho de 102 anos preferir o suicídio a ter que mudar-se de seu cantinho... Convivi com uma senhora que beirando seus 100 anos, vivia sozinha em uma casinha humilde em um terreno enorme e irregular. Quase sem visão, devido à catarata, e no escuro, ela se locomovia por todo o terreno sem cair e nem esbarrar em nada. Transitando em um estágio intermediário entre a demência e a lucidez, ela conseguia fazer tudo sozinha, mantendo a repetição de sua rotina dia após dia... Quinzenalmente eu ia visitá-la para levar os remédios, e aferir a pressão arterial. Em um desses feriados prolongados, eu resolvi levá-la comigo para a praia, ela adorava passear de carro. A casa que eu aluguei era de sala, quarto, banheiro e uma cozinha americana, própria para veraneio, com poucos móveis e acessos fáceis, mas mesmo assim, a senhorinha a toda hora se perdia dentro do imóvel, perdendo o senso de direção dos cômodos, e ainda bem que não havia muito por onde ela andar... Ou seja, ela era independente dentro da casa dela, por onde ela circulava até no escuro e sem visão, mas se a tirassem de lá, nada ela seria, e não há nada mais deprimente para o idoso do que ver a suas próprias limitações...

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