"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 28 de novembro de 2010

Rambos, pés de chinelo e o sensacionalismo da melancolia...

A decepção foi geral. Tanto os que torciam pelos bandidos como aqueles que apostavam nos policiais tiveram que contentar-se com um final melancólico. Só os meios de comunicação com seus fotógrafos, seus câmeras, seus repórteres e seus âncoras puderam faturar legal e iludir as massas por alguns dias. No front, nada. Só aquelas tartarugas enferrujadas e aqueles homens fantasiados de Rambo – de um lado – e aqueles pés de chinelo de outro. Uma rajada aqui, outra ali para não deixar o tédio tomar conta. Uns sacos de maconha aqui, uns pacotes de cocaína acolá, fuzis, cartuchos, balanças e bacias que os foragidos iam deixando pelo caminho, mas nenhum livro. Nenhum, nem sequer um Manual de guerrilhaA vida de Papillon, Como fabricar bombas caseiras, o Kamasutra, Como negociar com pó sem voltar ao pó, ou pelo menos uma Bíblia, nada. Ateus e analfabetos. O analfabetismo é epidêmico. Complexo do Alemão? Complexa mesmo é essa intriga entre Cain e Abel. Ou seria entre Abel e Cain? A comunidade obesa espiando pelas frestas dos barracos, um policial aponta para o nada, helicópteros das TVS privadas iludindo e atiçando as massas, outra rajada, a policia sob a chuva, os bandidos correndo morro acima com suas incômodas havaianas. Faixa de Gaza ou Muro das Lamentações? Frustrado e impressionado com o abismo que existe entre as palavras e os atos, fico imaginando como devem ter sido inacreditáveis os micos na guerra do Paraguai.

Um comentário:

  1. Aqui me vem a figura da "Cidade Maravilhosa"...Há cerca de uns dez dias a minha inquietude me fez escalar a pedra do Pão-de-Açúcar. Até chegar no ponto do início da via tem-se que andar por bons metros de trilha pela mata. Enquanto subia, ouvia o barulho ofegante de um homem que vinha logo atrás de mim. Quando ele cansou, eu incentivei-o a prosseguir, pois já estávamos quase chegando ao final da trilha. Apresentou-se como um consultor da Rio + 20, que tinha vindo de Brasília, e iria ficar mais dois meses no Rio. Hospedado na Beira Mar, na Zona Sul da cidade, tecia inúmeros elogios sobre a cidade. Enquanto o ilustre elogiava a cidade, eu ia me lembrando que até alguns meses atrás eu não conseguia dormir com os "fogos" das comunidades mais próximas, do terrorismo das facções criminosas, do juriciário mesclado com a vagabundagem, com a falta de educação generalizada, com o trânsito da cidade, com o culto ao samba e à bunda, com a desvalorização da cultura, com a paralização da cidade no dia de um clássico do futebol, com os transportes coletivos lotados (uma crueldade com o povo), com as inúmeras crianças pedintes nos sinais, com a "eutanasia" nos hospitais públicos, com as escolas esvaziadas, com a prostituição de Copacabana como turismo, com as calçadas sujas e quebradas, com o medo de andar pela cidade, e com o guardador de rua utilizando um colete da prefeitura me estorquindo para não ter o carro arranhado, e ainda me agradecendo: - "Aí cumpadre, vaii im pazz, Madama". Qualquer outro lugar é o paraíso perto disso aqui...

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