"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 4 de setembro de 2010

A coruja, essa desconhecida...


Um casal de corujas volta todos os anos e cava o mesmo buraco de uns dois metros a uns cinqüenta passos do ambulatório. Desde que amanhece o dia fica lá ao lado da toca e na posição de sentido como dois soldados poloneses. De vez em quando um filhote coloca a cabeça para fora e fica olhando desconfiado e fascinado com todos os mistérios e teoremas que a partir de alguns dias terá que decifrar. Sim, nascer – diria um escritor argentino – significa um pacto monstruoso, mas estar vivo é a única maravilha possível! Por ter saído do ovo no território de um hospital, com certeza terá uma visão mais amarga, mais doentia e mais dolorosa do mundo. Ou não? Consideradas por muitos esotéricos e por todo tipo de crentes o símbolo da desgraça, do sinistro, do ocultismo, das trevas e da morte, as corujas parecem provocar conscientemente os pacientes, os médicos e outros anônimos que circulam dia e noite por aqui. No interior das lentes seus olhos estão a uns centímetros dos meus e saber que são cem vezes mais potentes me causa certo desconforto e a idéia infantil de péssimo agouro e de mau presságio... Cuidado! Cuidado! Resmungaria Nietzsche, se olhas para o abismo o abismo também olhará para ti! Os gregos a tinham como o signo da sapiência e da sabedoria, tanto é que a deusa Atena sempre era representada com uma aos ombros. Apesar de não se importarem com minha proximidade e nem com o clic de minha câmera, aos mais sutis ruídos de outro animal, giram o pescoço a 270 graus e turbinam por instantes a ansiedade e a vigília. Quando criança ouvia dizer que o pio das corujas sobre os telhados ou sobre os campanários das igrejas era desgraça certa. Por coincidência, ou não, nos dias subseqüentes sempre morria uma velhinha aqui, um bandido acolá, tombava um ônibus, disparava acidentalmente uma espingarda, alguém quebrava uma perna, caia um meteorito sobre uma vaca, etc... Crendices e idiotices de uma espécie atordoada e condenada irremediavelmente ao envelhecimento, à doença e à morte.

4 comentários:

  1. As corujas são lindas. Suas penas são acetinadas e seus olhos são hipnotizadores. Elas ficam vigiando a vida com seus olhos mágicos e piam porque têm muito medo dos homens.

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  2. Maravilha de foto! Concordo com Maria Helena, são lindas sim; talvez por serem noturnas e relacionadas com a lua sou muito ligadas a elas; estou sempre por perto delas e às vezes quando não tiram uma rasante em meus reluzentes cachorros brancos chegam bem próximas a perguntar o que sempre faço com eles ali do lado...Nada tem de sinistras e lamentavelmente são alvo da idiotice dos homens.

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  3. será mesmo que viver é a única maravilha? viver é adoecer, sofrer de tantos males possíveis, (se der tempo)envelhecer e, morrer é que talvez, talvez seja mesmo um alívio. Ah, esses olhos grandes e agudos sempre atentos e procurando olhar com cautela o menor flash ou objeto que se movimenta ou aproxima.

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  4. Penso o contrário, ela traz boa sorte e é símbolo de sabedoria. Amo corujas!

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