"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

As simpatias sintomáticas da senectude...

Ultimamente, ao fazer minha caminhada matinal pelas entre quadras desta cidade que, aliás, está cada vez mais parecida a um asilo de velhos, tenho percebido que aumentaram, e muito, os acenos, as deferências e os cumprimentos que os anciões – que vão em cadeiras de rodas, que também estão caminhando nessa hora ou simplesmente sentados ao sol - me dirigem. Mesmo de longe fixam o olhar em minha direção, levantam os braços magros e trêmulos e sorrindo me desejam afetuosamente um bom dia, uma boa manhã, um porvir de sucesso etc. Claro que retribuo com o mesmo desespero e com o mesmo afeto, mas sem deixar de buscar malignamente em minha memória alguns dos dados biográficos daqueles que conheço: aquele ali – por exemplo - foi um verdadeiro crápula quando era presidente da instituição X. Aquela lá, era uma chefete-galinha que mandava literalmente em todos os panacas de um andar inteiro apesar de seu único mérito ser visível apenas quando abria as pernas para os superiores. Aquele outro foi um dos generais mais temidos das tropas, dizem que durante a última ditadura ele próprio ia chutar o estômago dos esquerdistas. Aquele que vai quase carregado por uma auxiliar de enfermagem era o Don Juan de seu Ministério. Aquele balofo que está sendo amparado por duas governantas tocou punheta para diretores durante décadas para manter-se em cargos de gerência. Aquele da bengala era um bonachão que colocou toda sua família em postos privilegiados. Aquele que tenta equilibrar-se com dificuldade na parede ensolarada, foi um alcagüete do SNI. Aquela megera descabelada que briga com seu cachorro foi a secretária Máster que todos os DAS queriam comer. O que está com um babador nos degraus de seu prédio foi assessor de cinco ou seis presidentes da república, seus filhos vivem felizes e gordinhos em Paris, etc., etc., etc. Tento livrar-me desses “recuerdos” e acelero o passo. Na segunda volta, por sorte, muitos já não estão mais lá. Agora aparecem sozinhos nas janelas e me acenam novamente. Bom dia! Morning! Tchau! Buenos dias! Arriverdérci! Adios! Adios... Adios...

Dou meia volta e mudo definitivamente meu roteiro admitindo que apesar de tudo, foram eles, de uma maneira ou de outra que me fizeram ver, na prática, que nossas relações sociais são mais ou menos como a dos carneiros: “quando dois carneiros estão comendo, há sempre um que se aproxima do outro e o expulsa com seus chifres. O terrível, porém, é que sua intenção não é a de comer da porção do outro, e sim a de que o outro não tenha o que ele tem...”

Ezio Flavio Bazzo

4 comentários:

  1. Bazzo, este seu olhar é uma metralhadora giratória (rrs)que não deixa escapar nenhum fio de esperança sobre a sorte dos humanos.

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  2. Pelo menos não sou o único em Brasília que sinto/possuo mais medo, receio, questionamentos e restrição ao afago aos idosos daqui. Quantos desses "velinhos" não foram adultos filhos da puta sustentados pelo sistema público federal ou torturadores dos "comedores de criancinhas" ou "anticristos da tradição-família-propriedade" durante o tempo dos generáis???? O que mais me assusta é que os jovens e adultos de hoje dessa cidade mantém o mesmo perfil parasitário desses velinhos de hoje!!!!

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  3. Pois é, apesar de toda a dedicação que eu tenho para com eles, como se fosse uma dívida pelo que eles me "pagaram" durante a minha infância e adolescência, no meu íntimo, esse é o meu pensamento quando estou ao lado das criaturas que me sustentaram... Era percpetível que eu era um fardo para eles, e que eles não poderiam se livrar de mim, pelo menos enquanto eu fosse menor de idade... Hoje a "coisa" se inverteu, porque apesar de velhos e doentes, eu não consigo apagar da minha memória o descaso, o abandono e os maus tratos do passado, mas mesmo assim eu continuo lá, a cuidar deles com uma diversidade de sentimentos, afinal mal ou bem, foram eles que me sustentaram, durante o período em que era dependente, mas não posso dizer que foram pessoas boas e de bom caráter, ao contrário, e acredito que apesar da velhice também não tenham mudado seus instintos destrutivos...

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  4. sensacional, é isto mesmo!

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