"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 19 de junho de 2010

Boa viagem camarada Saramago...

Os grandes, os nanicos e os médios jornais costumam estar com matérias praticamente prontas sobre homens eminentes que já estão com um pé na cova, sejam eles do mundo da política, dos negócios das letras ou até mesmo do mundo do crime. Vem a notícia da morte e pronto: aparecem oportuna e rapidamente três ou quatro páginas elogiosas em cada periódico ilustrando a intimidade, a grandeza, os vícios e os méritos do defunto. As editoras trabalham até de madrugada para reimprimir seus textos e os livreiros amontoam rapidamente suas obras nas vitrines chegando até ao cinismo de dar-lhes um ar de mausoléu. Os parlamentares, principalmente os senadores, sobem à tribuna para fazer menção a esta ou àquela novela, a este ou aquele ensaio. Os amigos, os intelectuais, os críticos de plantão, a canalha esclarecida e mesmo aqueles que nunca leram mais do que uma ou duas páginas de seus livros aparecem nas janelas para resmungar que “foi uma grande perda!”, que “a língua portuguesa ficou órfã!”, que “a literatura perde um homem de coragem!”, etc. Ontem foi a vez do português José de Sousa, conhecido por Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Nem o mais otimista dos apostadores poderia imaginar que aquele homem que havia escrito os romances Manual de pintura e caligrafia e A segunda vida de Francisco de Assis pudesse algum dia vir a receber a bolada do Nobel. Mas recebeu. Passou a ser conhecido como escritor só depois de 1969, quando ingressou no Partido Comunista Português, e neste particular lembra a Jorge Amado que se não fosse o Partido, como escritor teria morrido no anonimato. Homem sortudo, Saramago que já era propagandeado pelos militantes do partido, passou a sê-lo também pelos da colérica igreja católica portuguesa com a edição de seu O evangelho segundo Jesus Cristo, que, apesar de parecer uma crítica feroz é mais uma reafirmação do mito cristão etc., etc., etc. Enfim, morreu ontem numa belíssima ilha das Canárias com 87 anos e ao lado de sua companheira uns trinta anos mais jovem. O que mais pode querer um pobre terráqueo? Que os aduladores façam os elogios que quiserem, que exagerem a vontade, mas Saramago, que a essas horas deve estar quase passando pelo crematório não era lá essas coisas. Não tinha a grandeza e nem a profundidade de um Borges, não chegava nem perto de Vargas Vila, nem parecia conterrâneo de Eça de Queiroz e não chegou sequer a igualar-se a Fernando Pessoa, como dizem alguns bobocas. Sempre que lia suas obras, ouvia ou o via falando tinha o sentimento legítimo e até respeitoso de estar diante de um cardeal laico. Curiosamente, apareceu no cenário desvairado, fraudulento e narcísico da literatura mais ou menos na mesma época que Paulo Coelho.

3 comentários:

  1. Sua fala desconserta a vida organizada (rsrs). Ezio Flávio Bazzo... A caneta na sua mão é um perigo!!!

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  2. De fato, eis mais um caso de escritor (Saramago) superestimado. Gostaria de ler um texto do Bazzo sobre Dunga, o primata...

    http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/esportes/pri_esp_207.htm

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  3. para mim saramago foi morto pela opus dei portuguesa.........

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