"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Allegro ma non troppo ou o exército dos sessentões

A invenção do sabão e do saneamento básico, muito mais que a medicina e seus medicamentos, dobrou os dias de vida de nossa espécie. Sem perder tempo especulando se isso foi “bom” ou “ruim”, o trágico é que com essa longevidade, depois dos 60 todos vamos ficando cada vez mais idênticos, similares e parecidos como se uns fossemos meras cópias dos outros. A pele, os cabelos, os músculos, os dentes, a visão, a audição, a libido, os ossos, a marcha, os transtornos em geral e até mesmo as roupas, vão fazendo dos dessa idade um exército de velhotes estandardizados e melancólicos. E por mais que quiséssemos camuflar e negar esse horror, seria inútil já que as ruas e o cotidiano são como imensas vitrines repletas desses clones e desses espelhos aonde vamos nos enxergando e nos identificando por todos os lados. Um grisalho aqui, um barrigudinho ali, um maníaco acolá. Um com os cabelos avermelhados, outro careca, um míope, um trôpego, outro em cadeira de rodas, quase todos trêmulos, ranzinzas, impacientes, os bolsos cheios de bulas e, claro, com a carteirinha de aposentados. Quando algum não aparece logo pela manhã nas bancas de jornais, nas padarias ou nas tradicionais pistas de caminhadas, os outros já sabem que houve um derrame, um infarto, uma queda no banheiro, um óbito. Pelo que tenho observado, a juventude (por três motivos) não quer nem passar perto desses estranhos brigadistas. Motivo 1: ressentimento pela precariedade do mundo que esses velhotes lhes legaram. Motivo 2: a tirania e a crença dos velhos de que sabem mais e que devem dar a última palavra sobre tudo e motivo 3: no auge do tesão é natural que a juventude não queira tomar precocemente consciência daquilo que o porvir lhe reserva.

Sobre minha mesa de estudos três títulos inspiradores:
Et si je suis désespéré que voulez-vous que j'y fasse? (Gunter Anders)
Bref traité du désenchantement (Nicolas Grimaldi)
Allegro ma non troppo (Carlo M. Cipolla)

3 comentários:

  1. Mas o importante, como disse Baudelaire, é : être bête et content (rrss). Depois dos 60 anos, toda a realidade que nos cerca é mortal, e refiro-me ao conjunto corpo/alma. Anotei os livros desesperadores. Merci.

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  2. Salvou meu dia, Ezio.
    Mas eu ainda estou com apenas 30 anos.
    No meio do caminho, ainda.
    Mas no rumo certo!

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  3. nem todos os velhos são chatos! E, quem é velho chato sempre foi também um jovem e um adulto chato, depois pode ser que piore um pouco mais. E, vai me dizer que a juventude não tem sido chatonilda e ranzinza e meio múmia paralítica? Às vezes, um jovem parece um matuzalem.

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