"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Seja sincero: você não gostaria de também estar indo para Copenhague comer Smorrebrod?

Nesta semana Brasília ficará bem mais limpa e tranqüila. Muitos políticos, de todos os partidos e naipes, estarão perfumadinhos e felizes nos aeroportos voando para Copenhague. Fazer o quê? Comer Smorrebrod com pasta de fígado. Outros preferirão as almôndegas de carne de porco com repolho vermelho enquanto suas “esposas” - também perfumadinhas e mais felizes ainda – experimentam o Risengrod, aquele arroz com açúcar, canela e manteiga que sempre foi o prato preferido do gorducho Papai-Noel. Não podemos esquecer que existe também um ecossistema estomacal e intestinal, tão importante como as geleiras do Himalaia e como a nossa estratosfera. Ser político! Não há profissão melhor neste mundo. Exige apenas um caráter de puta. Mas isto, quem não tem? Todos somos testemunhas de que nossa formação começa já lá no primeiro grau. Fazemos reciclagem no segundo e concluímos nossa a formação automaticamente na universidade. Depois que se entra no parnaso das Câmaras (municipais, estaduais ou federais) lugares onde chove dinheiro, oportunidades e poder por todos os lados, só se sai de lá demente ou morto. O que se exige de um político? Simplesmente que compareça na sua alcova. Que fale. Que suba à tribuna de vez em quando. Que se manifeste ora a favor dos tubarões, ora em defesa dos lambaris. Comprará a cumplicidade de três ou quatro capangas, iniciará seus filhos, irmãos e netos no mesmo métier e se reelegerá até a morte. Para dar coerência à mamata que o sujeito teve em vida, inclusive seu funeral será por conta do Estado. Pois é, aquele corpo inútil, malandro e desprezível que custou milhões e milhões aos cofres públicos, por ironia, ainda será velado num salão nobre, quase como um Papa ou como um Rei...

Mas voltando a Copenhague. Todos nossos “porta-vozes” vão para lá com duas ou três páginas “ecológicas” no bolso do paletó escritas e revisadas por um tradutor juramentado. Uns com idéias mais transcendentes e revolucionárias que os outros a respeito do “clima”, da “preservação do planeta” etc, como se não tivessem nada a ver com os caixões de lixo hospitalar que encontramos diariamente por todos os lados, com a infestação criminosa de automóveis nas ruas, com a fumaceira dos escapamentos dos ônibus, com a falta de higiene elementar nos restaurantes, com a insalubridade nos ambientes de trabalho e com a ausência de esgotos na América Latina inteira, com o sufocamento bestial dos rios, com a ausência absoluta de atendimento à saúde mental no país e com a construção obsessiva de prédios em áreas verdes. Aqui em Brasília – por exemplo – os tratores já iniciaram a derrubada de mais uma área imensa de cerrado, a uns mil metros do Palácio do Buriti, para a construção de um condomínio grãnfino. Sim, os corretores estão até falando que será um modelo de moradia ecológica, e isto, com a conivência de todo mundo: civis, militares, políticos, ecologistas, padres, velhos, adolescentes, putas e freiras, ricos e fodidos, empresários, mendigos, bandidos e santos. Não tenho dúvidas que há na essência dessa passividade e desse desinteresse uma tendência imensa ao suicídio. E não foi por acaso que Leclerc, ao traçar o perfil psicológico do brasileiro escreveu: “toda a nossa sabedoria política se resume na resignação diante do fato consumado”. Que tragédia e que bosta!


Ezio Flavio Bazzo

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