"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Poeira de cocaína, pedregulhos de crack e raízes de arruda IV

Sinceramente, a marcha dos trinta ou quarenta advogados em direção à Câmara Legislativa para protocolar mais um pedido de impeachment contra o governador e seu vice, causou-me muito mais espanto e indignação do que ver aquela série de vídeos onde os pés de chinelo barrigudinhos e esperançosos exibiam bravatas e os larápios embolsavam pacotes de dinheiro. Se não estivessem engravatados e se a marcha deles não fosse tão artificialmente marcial, talvez não tivesse me impactado tanto. Que motivos e quê segredos os impediram de fazer o mesmo no mensalão anterior lá na outra Câmara? Ora, dizer que a faixa nos olhos da estátua de justiça é o símbolo da imparcialidade é um blefe. É bem provável que seus olhos tenham sido interditados para que ela não veja tantas bobagens e tantas imposturas travestidas de lei. E depois, neste país bacharelesco, desde o primeiro dia da República até ontem foram eles que engendraram praticamente todos os imbróglios das leis, todas as veredas obscuras dos códigos, as artimanhas e os truques dos processos para culpabilizarem os inimigos e beneficiarem os cupinchas e a si próprios. Saber – por exemplo - que posso assassinar estúpida e covardemente a uma criança ou a um velho ali na esquina e que, prontamente, qualquer um dos advogados da cidade estará disponível para defender-me, para mentir em meu nome, para justificar meu crime e até para colocar a culpa no defunto, isto é o fim da picada e a essência da desgraça de um povo.

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. Como você bem sabe, nós temos que escolher um passatempo para que não morramos de tédio até o juízo final.

    Alguns escolhem escalar montanhas, desenhar mobília, caçar bestas, e até arrancar pêlos das pessoas.

    Mesmo diante do vasto leque de opções, alguns ainda insistem na vilania institucionalizada. Freud explica?

    Depois de um certo tempo imerso na burocracia, ela se torna sublime, a ponto de transformar velhos, crianças, e por que não adultos "defesos" em um belo paragráfo nas milhôes de exordiais país a fora.

    As pessoas, quando transfomadas em Arial-14, não mais falam, sentem, fedem, cagam, trepam e muito menos mentem, quem dirá matam. O Nirvana Gutenberguiano.

    O feito do breve relato é mostrar aos ilustres "operadores do direito" que nem todos são cegos, e pior, usurpa a venda nos olhos de quem opta por não enxergar o homem do espelho.

    Mas não se esqueça jamais, no dia em que nos pegarem com a boca na botija - o que eventualmente acontece - é bom saber o número do capeta, pois em tese, só temos direito a um telefonema.

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